12ª edição da Coluna Literária - SOBRE DÁDIVAS E PONTES
Foto: Arte/FMCBH

12ª Coluna Literária - SOBRE DÁDIVAS E PONTES

Apresentação

Em 2021, recebi o convite para fazer a curadoria de uma exposição de ilustrações para a quarta edição do Festival Literário Internacional de Belo Horizonte - FLI-BH. Pouco tempo antes, havia lido o livro "A chave estrela", do escritor italiano Primo Levi, e ainda estava arrebatada por essa leitura. Uma imagem metafórica chamara minha atenção: o personagem principal, Libertino Faussone, ao refletir sobre o próprio ofício conclui que construir pontes é o que há de mais belo, “porque as pontes são como o inverso das fronteiras, e é nas fronteiras que nascem as guerras” (LEVI, 2009, p. 76) . Movida por tal metáfora, concebi a exposição "Sobre dádivas e pontes", uma mostra que apresenta dez livros ilustrados para crianças e jovens escritos por autores mais conhecidos por sua produção dedicada ao público adulto. Meu desejo era celebrar as travessias literárias como uma espécie de antídoto contra antigas dicotomias cristalizadas em nossa cultura, tais como as categorias infantil e adulto, palavras e imagens, clássico e contemporâneo.  

Sobre dádivas e pontes é o tema da Coluna Literária deste mês. A exposição segue circulando pelos Centros Culturais da cidade, em uma ação de descentralização cultural organizada pela Fundação Municipal de Cultura. Apresentamos aqui dois dos livros selecionados para a mostra: "Se os tubarões fossem homens", escrito por Bertolt Brecht e ilustrado por Nelson Cruz (editora Olho de Vidro), e "O rato e a montanha", de Antonio Gramsci e ilustrações de Laia Domènech (editora Boitatá). No perfil literário, apresentamos Marilda Castanha, autora belo-horizontina que ilustrou o conto "Bárbara", de Murilo Rubião, também selecionado para a mostra.

Esperamos que esta Coluna Literária seja para o leitor um convite ao encontro das dádivas que nos oferecem os livros e a literatura, ainda que para isso seja preciso atravessar as fronteiras que nos separam de expressões estéticas, culturas, gerações, autorias e subjetividades diversas.

Jéssica Tolentino
Curadora da exposição Sobre Dádivas e Pontes

 

Resenha 1 - O rato e a montanha

Livro O Rato e a montanha Em um local distante, um rato bebe o leite de um garotinho e esse ato, considerado talvez simples, desencadeia uma série de ações que mudam a realidade deste local distante. 

“O rato e a montanha”, do escritor Antonio Gramsci, é uma obra curta que entrega ao seu leitor uma história graciosa e repleta de lições sobre solidariedade e gratidão. Ambientado em um local que não se sabe o nome, o livro conta sobre como um ratinho mudou toda a realidade de onde habitava. Tudo começa com uma ação comum para os ratos: esgueirar-se para conseguir alimentos. Porém, o alvo desta vez é um garotinho pobre que tinha apenas um copo de leite para fazer o desjejum de manhã. Ao ver o garoto chorar, o ratinho, arrependido, decide ir até a fonte do leite. Ele só não contava que haveria tantos empecilhos para conseguir a bebida. O grande problema é que todos ali estão passando falta de algo, até mesmo a cabra! E o rato percebe que era necessário fazer algo além de devolver o leite ao menino. 

De uma forma bem sucinta, o livro “O rato e a montanha” busca contar, utilizando também de belas ilustrações, a história de um local onde todos que ali vivem precisam de um pouquinho de solidariedade. E é aí que se pode extrair múltiplas lições, porque, comumente, nós nos acostumamos a lidar com alguma necessidade de ordem física, mental ou emocional. A falta é algo presente, mas a solidariedade é sua consequência. Quando se estende uma mão para o outro, você recebe o apoio de quem está atrás, e por aí vai. Assim, é gerado um ciclo de empatia e gratidão, o que confirma a necessidade de procurarmos exercer nossa capacidade de enxergar a dor do outro. Desta forma, poderemos ter a nossa também enxergada. No final, toda uma cadeia de boas ações foi criada, possibilitando uma convivência no mundo mais altruísta.

A  leitura de “O rato e a montanha”  é um grande deleite, pois é possível observar como pequenas ações se tornam grandes quando unidas. A obra, despretensiosamente, toca o leitor com delicadeza e maestria e demonstra perfeitamente que é possível ser tocado e impactado com simples atos - que podem gerar um bem extraordinário. 

Tayná de Paula
Centro Cultural Lindeia Regina

GRAMSCI, Antônio. O rato e a montanha. Boitempo, 2019. 
 

Resenha 2 - Se os tubarões fossem homens

Livro Se os tubarões fossem homens “Se os tubarões fossem homens, será que eles seriam mais gentis com os peixinhos?” Assim tem início o diálogo desta obra literária, entre o Sr. K e sua filha, na pequena hospedaria. O livro, escrito por Bertold Brecht (1898 – 1956), é extremamente atual e descreve com maestria a sociedade em que vivemos.

Brecht foi um pensador, dramaturgo, poeta e contista alemão que escreveu grande parte da sua obra na tentativa de expressar seu descontentamento com a realidade social vigente, conforme percebemos ao longo do texto.

O livro foi escrito inicialmente para adultos em 1950 e adaptado para crianças do mundo todo. Ilustrado no Brasil por Nelson Cruz, traz a reflexão e crítica até mesmo nos traços do ilustrador, nos quais os tubarões são representados como seres cruéis, gananciosos, com dentes afiados e que assumem atitudes e expressões humanas.

Ao ser interpelado pela filha, logo no início do texto, o Sr. K responde que sim, os tubarões seriam muito mais gentis se fossem homens, e vai apresentando, ao longo da história, com extrema ironia e perspicácia, as situações em que seriam melhores, como podemos perceber no trecho abaixo: “Se os tubarões fossem homens, mandariam construir para os peixinhos enormes gaiolas no mar, que seriam abastecidas com toda sorte de alimentos, tanto vegetais como animais.”

Bertold critica a organização social desses “tubarões – homens bonzinhos”. Critica também a necessidade humana que temos de dominar os outros, geralmente sendo os mais fracos dominados pelos grandes e como as instituições sociais, muitas vezes, alienam nossa percepção dessa dominação como um todo, tendo como resultado uma sociedade cheia de contrastes, fragilidades e desigualdades. "Naturalmente também haveria escolas dentro das grandes gaiolas. Nessas escolas, os peixinhos aprenderiam como nadar, para dentro da boca dos tubarões. Deveriam ter noções de geografia para poder localizar melhor os tubarões grandes que ficam nadando por aí, preguiçosos".

O livro, em uma primeira leitura, pode ser de difícil interpretação para crianças e jovens, mas, ao mesmo tempo, é uma porta de entrada para introduzir assuntos como política, sociedade e desigualdades sociais. 

O texto de Brecht pode e deve ser lido por crianças, utilizado em oficinas de incentivo à leitura, possibilitando ao mediador trabalhar com esse público o pensamento crítico, despertando a consciência e a mudança de atitudes, para o desenvolvimento de uma sociedade mais igualitária e fraterna.

Priscila Miranda
Centro Cultural Liberalino Alves de Oliveira

BRECHT, Bertold. Se os tubarões fossem homens. Olho de Vidro, 2018.

Perfil Literário -  Marilda Castanha

Foto: Marilda Castanha - acervo pessoal Marilda Castanha nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais. A escritora relata que passou a infância brincando em um quintal que lhe parecia enorme, junto a bichos, plantas e jaboticabeiras. Cresceu desenhando. E diante destas inspirações se enveredou pela arte. Cursou Belas Artes na UFMG na década de 1980 e já na faculdade se encantou pela literatura infantil e começou a ilustrar.

A ilustração de Marilda tem uma identidade própria, sendo geralmente, muito fácil de se reconhecer quando nos deparamos com ela. Muito atuante também nos eventos e movimentos em torno da literatura na capital mineira, Marilda hoje é, além de ilustradora, autora de livros infantis como o "Agbalá, um lugar continente" publicado primeiramente na editora Formato em 2001 e reeditado em 2008 pela Cosac Naify, que ganhou o selo de “Altamente Recomendável" pela Fundação Nacional de Literatura Infantil e Juvenil - FNLIJ.

Marilda Castanha tem obras premiadas no Brasil e no exterior. No Brasil, ganhou em 2012 o prêmio Jabuti, o mais conceituado prêmio literário brasileiro, por “Mil e uma estrelas”, editado pela Cosac Naify. Na Coréia do Sul, recebeu em 2017 o prêmio internacional "Nami Concours" por seu livro ilustrado "Sem Fim”. "Pindorama: terra das palmeiras" é seu livro mais premiado (Runner-Up, 2000; Noma – Unesco, Japão;  Prix Graphique Octogone, 2000, França;  FNLIJ,1999; Melhor Ilustração -  Jabuti, 2000) Melhor Ilustração de Livro Infantil ou Juvenil.). Nesta obra, Marilda nos leva ao passado do nosso país e nos apresenta alguns de nossos povos originários. Para compor as ilustrações deste trabalho, a escritora pesquisou a iconografia e os registros feitos pelos naturalistas e, sobretudo, pelos próprios indígenas nas paredes das grutas, nas pinturas corporais, nos adornos e arte destes povos, inspiradas em elementos da natureza. Este livro foi escrito e ilustrado após seu retorno de um seminário de ilustração em Bratislava, na República Eslovaca, em 

Em sua biografia no site da editora Global, Marilda diz: "Hoje, vivo no meio de desenhos e histórias, em Santa Luzia, pertinho de Belo Horizonte, onde moro e trabalho. E tenho uma filhinha, que também adora histórias e gosta muito de desenhar."

Em 2019, a ilustradora foi uma das curadoras da terceira edição do Festival Literário Internacional de Belo Horizonte - FLI/BH, cujo tema foi “Do Livro à Voz: Narrativas Vivas”. Em 2021, "Bárbara", história de Murilo Rubião lindamente ilustrada por Marilda, editora Positivo, fez parte da exposição “Sobre Dádivas e Pontes” na programação da quarta edição do FLI-BH e homenageada por esta coluna nesta edição.

Vários livros escritos e ilustrados por Marilda Castanha podem ser lidos e emprestados nas 22 unidades da rede de bibliotecas da Fundação Municipal de Cultura. Fica o convite para conhecer sua obra, de fundamental importância para a literatura infantil brasileira contemporânea. Para saber mais sobre a autora, acesse o blog.

Ericka Martin
Centro Cultural Zilah Spósito

Para visitar as Bibliotecas da Rede Municipal e pesquisar seu acervo, acesse informações no site: pbh.gov.br/reaberturabibliotecas 

 

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