FOTO DO SHOW DE TEREZA CRISTINA
Foto: Denise dos Santos

“Rotas” abre diálogo e criação coletiva para os 30 anos do FAN BH

Com o tema Tempo Espiralar e a Cidade em Movimento, a etapa ‘Rotas’, da 13ª edição do FAN BH propôs um olhar sobre a história do Festival, que completa 30 anos. As Gingas e atividades culturais, que aconteceram de 17 a 21 de novembro, no Teatro Francisco Nunes e na Funarte, confluíram em laboratório de escuta, reflexão para a criação coletiva  das próximas etapas que se estendem pela cidade até 2026. Ao todo, foram 100 artistas e agentes culturais envolvidos em 18 atrações, reunindo um público de 900 pessoas. A cidade pode esperar para 2026 uma festividade que pensará a descentralização e territorialização das ações, aprofundando o diálogo com periferias e territórios tradicionais; o fortalecimento da memória institucional, entendida como tecnologia de continuidade e de futuro; investimento em formação e políticas perenes voltadas para artistas, trabalhadores da cultura e comunidades negras; ampliação da participação social na construção do Festival, consolidando o FAN como espaço comunitário e não apenas como evento, além da afirmação da dimensão política da arte negra, enfrentando desigualdades e reivindicando direitos culturais. 

A estrutura do festival nesta edição comemorativa se organiza em cinco atos. Após as etapas Reunião Pública, que aconteceu em outubro, e o FAN Rotas, em novembro, o Chamamento Artístico está previsto para janeiro de 2026 e traduz as escutas em oportunidades concretas de participação, abrindo o processo criativo à pluralidade de vozes negras. O quarto ato, FAN Raízes, em março, finca os pés na ancestralidade, promovendo encontros, oficinas e celebrações dentro dos territórios, terreiros, quilombos e espaços culturais afro-brasileiros, reafirmando a força comunitária e espiritual do fazer artístico. Por fim, o FAN Espiralar, previsto para maio, representa a culminância do processo: uma grande celebração da arte negra e do afroempreendedorismo com shows, exposições, mercado Ojá, atividades formativas e o Fanzinho, dedicado às infâncias e juventudes. 

 

Encontro com Leda Maria Martins marca a abertura

 

“Outros modos alternos de se experimentar e especular sobre o tempo: um tempo curvilíneo, pleno de possibilidades e de reversibilidade. A concepção espiralada do tempo, como eu a traduzo, funda-se no lugar de privilégio do ancestral, que preside como presença as espirais do tempo”. Esta foi a convocação sobre a história do FAN BH fez parte da fala provocativa e potente do encontro com Leda Maria Martins na celebração de abertura da 13ª edição do Festival, no dia 17 de novembro, no Teatro Francisco Nunes. Leda subiu ao palco com reflexões e olhar festivo sobre o Festival guiando-se por cantos que celebraram a força do congado junto ao toque dos tambores de Gil Amâncio e Maurício Tizumba. Leda, que em 2012, na sexta edição, foi a primeira mulher a compor a curadoria do Festival, retorna ao Festival com sua obra Performances do tempo espiralar: Poéticas do corpo-tela na centralidade da temática desta edição. Sua obra, que inspira FAN BH, nesta etapa “Rotas” propôs uma retomada reflexiva sobre a memória, tempo e suas cosmologias.

 

O ato Abre Caminhos, que precedeu a apresentação de Leda Maria Martins e o show da sambista Teresa Cristina com o grupo Congadar, aconteceu em frente ao teatro e aos pés da gameleira, árvore que representa Iroko, orixá que rege o tempo, o espaço, as estações do ano e a sabedoria ancestral. No local, que também estão as estátuas de Carolina Maria de Jesus e Lélia Gonzalez, representantes de várias religiões como Pai Ricardo, Rainha Belinha, Padre Mauro, Mam’etu Muiandê, Sidney D’Oxóssi, Pastor Gibran e Pastora Patrícia  e mãe Ana se reuniram junto ao público em um gesto celebrou às ancestralidades diversas que sustentam o Festival para reafirmar o compromisso com a diversidade do sagrado que abre os caminhos para o encontro, a arte e a continuidade das tradições negras. 

 

A proposta de refletir a história do FAN BH não foi por acaso, com o tema Tempo Espiralar e a Cidade em Movimento, as Gingas foram escolhidas como ponto central da programação para formar um amplo laboratório de escuta, reflexão e criação coletiva. Ao reunir mestras, mestres, artistas, pesquisadores, gestores e lideranças comunitárias, os encontros reafirmaram a vocação do Festival de Arte Negra de Belo Horizonte como espaço de memória, formação e invenção de futuros. 

 

Cada Ginga tratou de dimensões fundamentais das culturas negras — patrimônio, economia, arte, infâncias, protagonismos e formas de trabalho — compondo um panorama que conecta passado, presente e futuro no espírito do tempo espiralar, tema que orienta esta edição comemorativa. 

Para a secretária municipal de Cultura, Eliane Parreiras, celebrar os 30 anos do FAN BH a partir da ideia do tempo espiralar é reconhecer que este Festival é feito de memória viva, de escuta e de construção coletiva. “O ‘Rotas’ reafirma o FAN como um espaço comunitário e de diálogo permanente, no qual passado, presente e futuro caminham juntos, orientados pelas ancestralidades, pelos territórios e pelas vozes negras que constroem essa história com a cidade. Mais do que uma programação cultural, o FAN se consolida como uma política cultural contínua, que transforma escuta em ação, fortalece o protagonismo das culturas negras e projeta novos caminhos para Belo Horizonte”, completa.

Bárbara Bof, Presidenta da Fundação Municipal de Cultura, refletir sobre 30 anos do FAN tem sido uma oportunidade de começar de novo. “Vivenciar essa experiência dos 30 anos do FAN, com o olhar atento à história das pessoas, dos movimentos e de todas as articulações que fizeram que nós chegássemos até aqui. A 13.ª edição, que se inicia agora e que segue até o ano de 2026, tem sido um momento fundamental de revisitar os acertos, de olhar para as potências e também de colocar no centro das discussões pontos estruturantes. E com a energia, estamos trabalhando em conjunto com artistas, gestores, movimentos culturais presentes nos mais diversos territórios da nossa cidade”, afirma.

Sankofa: Um olhar para a história do FAN BH para repensar seu futuro

Fredda Amorim, pesquisadora e parte da comissão artística explica que o conjunto, “as Gingas reafirmaram que o FAN completa 30 anos não olhando apenas para o passado, mas compreendendo o tempo como espiral — movimento que revisita memórias para projetar rotas de continuidade”.

 

As Gingas foram Memória, Patrimônio e Encantarias; Economia, Sustentabilidade e Trabalho na Cultura Negra; Arte, Linguagens, Infâncias, Juventudes e Protagonismos; e 30 anos e Rotas são como bússolas para o futuro do FAN. Elas apontam prioridades que orientarão as próximas etapas.

 

As discussões demonstram que o Festival segue sendo mais que uma programação cultural: é uma escola viva, um território de invenção, cuidado e disputa de narrativas. E as rotas criadas nas Gingas serão referência direta para fortalecer e expandir o FAN nas etapas seguintes, garantindo que o festival continue produzindo encontros que transformam, inspiram e mobilizam futuros.

 

 

Memória, Patrimônio e Encantarias

 

A roda dedicada à memória reafirmou que o patrimônio negro vai muito além da materialidade: vive nas oralidades, nos terreiros, na organização comunitária e nos modos de existir transmitidos entre gerações. As falas de Tata Kasulembê, Makota Kidoiale e Débora Raiza destacaram a centralidade dos terreiros como espaços formativos e a urgência de políticas públicas que reconheçam esses territórios como pilares de continuidade e cuidado. 

 

Economia, Sustentabilidade e Trabalho na Cultura Negra

 

A Ginga sobre economia evidenciou que sustentabilidade, nesse contexto, é a ética de permanência e sobrevivência coletiva. Os relatos de agentes da gastronomia, do teatro e da gestão cultural escancaram desigualdades e mecanismos de exclusão ainda presentes no setor, ao mesmo tempo em que reivindicam políticas específicas, formação sensível às realidades negras e fortalecimentos das redes de circulação econômica entre produtores negros.

Arte, Linguagens, Infâncias, Juventudes e Protagonismos

Na Ginga unificada, ficou evidente que a arte negra é ferramenta pedagógica, política e de reinvenção social. As discussões apontaram para a urgência de garantir presença e continuidade de artistas e educadores negros em processos formativos, políticas culturais permanentes e maior atenção às infâncias e juventudes como protagonistas e não como exceção dentro do sistema cultural. 

30 anos e Rotas 

No encontro dedicado à trajetória do Festival, destacou-se a importância de organizar memória, ampliar a participação comunitária e fortalecer a descentralização. Ficou claro que o futuro do FAN passa por modelos de gestão mais híbridos, políticas culturais estáveis, estratégias de comunicação expandidas e circulação do Festival pelos territórios populares — garantindo que as narrativas negras ocupem integralmente a cidade. 

A programação do FAN, de 18 a 21 de novembro na Funarte MG, além das gingas reuniu uma série de ações que marcaram a potência das artes negras. A Mostra da Semana de Cinema Negro, com curadoria de Layla Caroline Braz e Cecília Godoi. O espetáculo Abre Caminhos, do Grupo Identidade, espetáculo Xirê, do grupo Morro EnCena, Uai Sound System e o Bloco Magia Negra também fizeram parte desta etapa do FAN BH.

Parceria FLI BH - Festival Literário Internacional

O FLI BH também se fez presente no FAN Rotas com o Slam Clube da Luta, a Gira Literária, que trouxe uma roda de conversa e lançamentos de livros de autoras e autores negros, com participação do Coletivo Negras Autoras, Pai Ricardo, Júnia Bertolino e Maíra Baldaia, em diálogo mediado por Renato Negrão. Ao longo de todo o período, o público pôde visitar a Instalação FAN 30 anos, com curadoria de Rosália Diogo, além da Biblioteca de Autorias Negras.

Além disso, houve atividades voltadas ao público infantojuvenil incluíram o Fanzinho – Griot, uma vivência de histórias e cantorias conduzida pelo Teatro Negro e Atitude, que também ofertou a oficina Ter-Ato, dedicada à sensibilização artística e teatral.

Confira as fotos dia a dia!

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