13/9, sábado, 19h
Sessão 1
Os filmes do ciclo Cinema Marginal Piauiense estão entre os primeiros já realizados no estado. Antes do surgimento desse grupo de cineastas e artistas, a ideia de fazer cinema em Teresina não passava de um sonho distante. A chegada das câmeras Super‐8 representou uma verdadeira revolução, tornando não apenas a filmagem, mas também o processo de revelação muito mais acessível e democrático. Nossa sessão de abertura apresenta as obras pioneiras desse ciclo. Após a conclusão de O Terror da Vermelha (1972), muitos dos participantes deixaram Teresina em busca de estudo e trabalho, mas o legado underground permaneceu e a semente do cinema já havia sido plantada. Esta sessão acompanha esse primeiro momento de crescimento.
Carcará, Pega, Mata e Come
(Arnaldo Albuquerque | Brasil | 1977 | Animação | 3min)
Animação em Super-8, considerada a primeira do Piauí. O filme apresenta uma alegoria crítica ao imperialismo cultural, na qual uma família sertaneja enfrenta um carcará que assume a figura do Capitão América, simbolizando a resistência popular diante da
dominação estrangeira.
O Terror da Vermelha
(Torquato Neto | Brasil | 1972 | Experimental | 34 min)
Misturando imagens violentas, sons inesperados e elementos da poesia concreta, a obra dialoga com o cinema marginal e a contracultura tropicalista. Filmado durante uma breve passagem de Torquato por sua cidade natal, o curta é um gesto radical de invenção, onde corpo, linguagem e cidade se misturam num delírio estético e simbólico.
Um Sonho Americano
(Arnaldo Albuquerque | Brasil | 1973 | Experimental | 5 min)
Filme de vampiro feito em Teresina, Piauí, que mistura humor, crítica social e experimentação formal com um olhar inventivo e provocador. A trama começa quando uma jovem toma uma garrafa de Coca- Cola e se transforma em vampira, desencadeando uma
onda de ataques sanguinolentos e cômicos pela cidade.
Coração Materno
(Arnaldo Albuquerque | Brasil | 1974 | Experimental | 15 min)
No início de 1974, Arnaldo Albuquerque, Edmar Oliveira e Durvalino Couto realizaram um filme intitulado Coração Materno, baseado em uma canção popular dos anos 1950. A letra fala da promessa inconsequente de um amante apaixonado: entregar à amada o coração da própria mãe como prova de amor. Após uma exibição privada, a película foi destruída por um cão da casa, restando apenas pequenos fragmentos. No final do mesmo ano, Haroldo Barradas decidiu refilmar todo o roteiro com um novo elenco, incorporando ao novo trabalho as partes resgatadas da versão original. O resultado é um curioso exemplo de “filme dentro do filme” , em que recriação e memória se entrelaçam para preservar uma história marcada por perda, reconstrução e afeto.
Miss Dora
(Edmar Oliveira | Brasil | 1974 | Experimental | 18 min)
Em um bloco de Carnaval com fantasias vermelhas, “loucura” lidera um grupo de “proletários” pelas ruas de Teresina. As ações do grupo simulam movimentos guerrilheiros contra a repressão da ditadura militar da época, refletindo a tensão política vivida no Brasil nos anos 1970. Dora, a protagonista, é uma mulher à frente de seu tempo, conhecida por sua história de resistência contra repressões psiquiátricas. Ela foi uma figura real da cidade e a estrela do filme, cujo elenco é formado por amigos e familiares de Edmar Oliveira, autor e diretor da obra. Edmar, hoje psiquiatra, foi um participante ativo do movimento contracultural dos anos 1970 e, através deste filme, oferece uma reflexão sobre os desafios da época, utilizando o cinema como forma de resistência e expressão.
David Aguiar
(Durvalino Couto | Brasil | 1975 | Experimental | 17 min)
A trilha sonora é composta por faixas do disco Atom Heart Mother, do Pink Floyd, popularmente conhecido como “o disco da vaca”. A figura central é David Aguiar, jovem de classe alta, neto de um ex-governador, talentoso pintor e conhecido como o primeiro hippie de Teresina. Com cabelos longos, atitude transgressora e um estilo de vida alternativo, tornou-se símbolo de rebeldia e provocação à moral conservadora da cidade. Uma breve narrativa sobre um nazista em fúria armada aparece no início, mas logo cede lugar a algo mais livre e impressionista. O filme se transforma num retrato caleidoscópico da juventude contracultural de Teresina, guiado pela presença magnética de David e por uma câmera que passeia entre o delírio, o afeto e o improviso.
Classificação indicativa da sessão: 18 anos
14/9, domingo, 16h30
Sessão 2
Em 1971, vivendo no Rio de Janeiro e pouco antes de retornar a Teresina, Torquato Neto atuou como prostituta travestida no filme pioneiro de temática gay Helô e Dirce (1971), de Luiz Otávio Pimentel. Essa produção, assim como Nosferato no Brasil (1971) de Ivan Cardoso, teve um impacto profundo sobre o jovem tropicalista. Torquato levou essas experiências e influências — como o interesse em desconstruir o cinema de gênero e em adotar um experimentalismo underground — de volta a Teresina, onde as compartilhou com seus pares. Com isso em mente, um dos filmes de abertura desta sessão é a cópia resgatada da obra de Pimentel.
Esta sessão destaca as primeiras influências de Torquato Neto no Rio de Janeiro e acompanha a trajetória dos cineastas piauienses à medida que levaram essa energia para além de seu estado natal, continuando a redefinir o cinema brasileiro por meio da prática coletiva.
Mergulho
(Arnaldo Albuquerque | Brasil | 1980 | Animação | 3min)
Em chave alegórica sobre Amor e Morte, o filme acompanha um homem que se lança em um abismo levando uma chave e mergulha rumo a um encontro amoroso, imagem que articula desejo, corpo e transformação.
Helô e Dirce
(Luiz Otávio Pimentel | Brasil | 1971 | Experimental | 19 min)
O filme acompanha Torquato Neto e Zé Português como prostitutas travestidas que circulam pelas ruas do Rio de Janeiro, explorando o desejo, a intimidade e a marginalidade em espaços públicos. A presença explícita do corpo queer, somada à representação direta de uma relação sexual e afetiva entre Torquato Neto e Zé Português, desafia abertamente as normas sociais da época e faz de Helô e Dirce uma obra pioneira no cinema queer brasileiro.
Porenquanto
(Carlos Galvão | Brasil | 1973-1974 | Experimental | 15 min)
Uma espécie de Anjo Exterminador percorre, de forma enigmática e desafiadora, o Rio de Janeiro dos anos 1970, carregando uma foice no ombro. Ele observa, intervém e transforma os destinos de diferentes personagens — em alguns casos com desfechos fatais, em outros, como aliado em projetos de natureza messiânica. Realizado entre 1973 e 1974, o filme explora o tensionamento entre arte e política durante o período da ditadura militar.
Escorpião Vermelho
(Carlos Galvão | Brasil | 1974 | Experimental | 3 min)
Concebido como uma versão satírica de Nosferatu, o filme apresenta uma releitura livre do mito do vampiro com toques de humor, erotismo e violência. Mesmo incompleto, o filme revela um interesse evidente pelo cinema de gênero e pelo potencial narrativo do exploitation, sugerindo caminhos criativos que infelizmente não chegaram a se desenvolver por completo.
Marginália
(Nelson Nunes | Brasil | 1974 | Experimental | 14 min)
O filme acompanha um jovem universitário que vaga pelas ruas de Belém, tomado por angústia e inquietação. Aos poucos, revela-se sua participação no movimento estudantil contra a ditadura militar e a perseguição que sofre por parte da polícia. Fragmentado e introspectivo, o filme entrelaça o contexto político com conflitos pessoais, sugeridos por sua relação tensa com uma figura amorosa. Com a participação de estudantes paraenses de teatro, o filme propõe um retrato sensível e crítico de uma juventude que buscava resistir à repressão através da arte e da ação coletiva.
Tupy Nikim
(Xico Pereira | Brasil | 1974 | Experimental | 17min)
Um personagem indígena caminha livre pelo Rio de Janeiro, território ancestral, e passa a ser seguido por uma figura sombria que o considera fora de lugar. Essa perseguição se desenrola por diversos espaços da cidade, acompanhando as tentativas do personagem de se integrar a um “tempo novo”.
Classificação indicativa da sessão: 18 anos
14/9, domingo, 19h
Sessão 3
A terceira sessão ilumina sub-histórias do cinema marginal no Piauí e aponta para os caminhos que o cinema do estado começava a trilhar. Além da ficção, aparecem aqui documentários radicais, incluindo também obras realizadas por piauienses em outras
regiões do Brasil.
Vã-pirações
(Arnaldo Albuquerque | Brasil | 1980 | Experimental | 3 min)
O filme acompanha um vampiro que vaga pela cidade em busca de sangue, confronta a violência cotidiana amplificada pelos noticiários e decide abdicar da caça, num registro de humor mordaz. A sátira mira a espetacularização da violência e a cultura de massa no fim da ditadura, aproximando iconografia de horror e crônica urbana piauiense.
O guru das sexy cidades
(ntônio Noronha | Brasil | 1973| Experimental | 10 min)
Concebido como paródia e resposta direta ao longa oficial “Guru das Sete Cidades” de Carlos Roberto Bini, produção financiada pelo governo Alberto Silva para promover um Piauí moderno e turístico, o filme de Noronha reaproveita locações e signos do original para desmontar com humor e irreverência a retórica propagandística em torno do desenvolvimento local. A narrativa gira em torno de um guru que enlouquece seus seguidores, retratados em momentos de adoração coletiva, êxtase e descontrole.
Cabeça de cuia
(Lindemberg Pirajá | Brasil | 1979 | Experimental | 13 min)
A obra adapta a lenda do pescador Crispim, amaldiçoado após matar a mãe e condenado a vagar pelo rio Parnaíba até devorar sete virgens para quebrar o feitiço. Por décadas considerado perdido e envolto em caráter mítico, o curta sobreviveu apenas em fragmentos. Esses trechos foram recuperados pela Cinelimite durante o projeto Digitalização Viajante e serviram de base, junto a registros gráficos e teatrais, para a recriação de uma nova versão em 2025, que devolve à obra seu lugar na história do cinema marginal piauiense.
Festa Junina no hospital Areolino de Abreu
(Edmar Oliveira | Brasil |1973 | Experimental | 13 min)
Um registro em Super-8 filmado por Edmar Oliveira em 1973, quando era estudante de medicina e plantonista no Hospital Psiquiátrico Areolino de Abreu, em Teresina. O filme acompanha uma festa junina dentro da instituição, revelando tanto o caráter festivo quanto a dureza das práticas psiquiátricas da época, incluindo a crise de um paciente causada por medicação.
Aterro
(Dogno Içaino | Brasil | 1979 | Experimental | 9 min)
O filme acompanha o cotidiano das comunidades que viviam em torno de um lixão em Fortaleza, onde famílias inteiras buscavam alimento e sustento entre os resíduos descartados. Com entrevistas em voz over e observação direta, o documentário revela estratégias de sobrevivência e laços de solidariedade invisíveis para grande parte da sociedade.
Tio João
(Antônio Noronha | Brasil | 1978 | Experimental | 9 min)
Em chave lírico-documental, recria a história do devoto João Batista, o “Tio João” , que ergue a igreja local e esculpe a imagem de São João. A narrativa é conduzida por sextilhas de João José Piripiri e pelo Hino a São João, articulando cordel, canto e reencenação num docudrama sertanejo. Pesquisas situam a obra entre os títulos de maior visibilidade do ciclo piauiense dos anos 1970, com reconhecimento no Festival JB de Cinema em São Paulo.
Classificação indicativa da sessão: 18 anos