15ª Coluna Literária - Meu Quadrinho Favorito - especial FIQ BH 2022
Foto: Arte/FMCBH

15ª Coluna Literária - Meu Quadrinho Favorito - especial FIQ BH 2022

Apresentação

Vem aí o FIQ BH 2022 e a 15ª edição da Coluna Literária: “Meu quadrinho favorito” celebra este evento, que volta a ser presencial. Nesta edição comemorativa, convidamos profissionais, cujos quadrinhos fazem parte de suas trajetórias, para responder à questão: qual seu quadrinho favorito? A partir desta conversa, apresentamos as resenhas de “Cachalote”, de Daniel Galera e Rafael Coutinho, editora Quadrinhos na Cia; e a coleção Sandman, de Neil Gaiman, editora Panini e, ainda, o perfil literário do quadrinista mineiro Nilson. 

O FIQ BH 2022 é uma realização da Prefeitura de Belo Horizonte em parceria com o Instituto Lumiar. Esta edição homenageia o quadrinista Marcelo D’ Salete, autor dos quadrinhos "Noite Luz", “Encruzilhada”, do sucesso internacional “Cumbe” e do premiado “Angola Janga”, “Pequena Angola” ou, como dizem os livros de história, Palmares, um reino africano dentro da América do Sul por mais de cem anos. A comunidade tinha uma capital com população equivalente a das maiores cidades brasileiras da época. Formada no fim do século XVI, em Pernambuco, tornou-se alvo do ódio dos colonizadores e símbolo de liberdade para os escravizados. Durante onze anos, Marcelo D’ Salete se preparou para contar a história dessa rebelião. 

A curadoria do evento é de Mariamma Fonseca e Lucas Ed. 
Ela é nascida em Eunápolis (BA) e moradora de Belo Horizonte. A artista visual Amma, jornalista e ilustradora, é idealizadora do site “Lady's Comics”. Também já venceu o prêmio Jabuti com uma de suas obras e coordena uma gibiteca em sua cidade natal, no interior baiano. Publicou, em 2020, seu livro "Amigas que se encontram na história" (vencedor do prêmio Jabuti na categoria infantojuvenil) e, em 2021, "Bertha Luz e a Carta da ONU". Inserida no universo dos quadrinhos e sempre trazendo para a pauta a presença feminina no meio das HQs, a curadora ainda foi responsável pela produção de duas edições do Encontro Lady's Comics, importante evento de quadrinhos no cenário nacional. 

Ele é mineiro de Belo Horizonte, professor, psicólogo e doutorando das relações entre as imagens e o pensamento coletivo por meio da cultura popular e de massa, sobretudo histórias em quadrinhos e artes visuais diversas. É autor da pesquisa “Para ver a Princesa Amazona - Representações sociais do feminino em quatro décadas de Mulher-Maravilha” (2014) que aborda a representação social do feminino em histórias em quadrinhos. 

A rede de bibliotecas da FMC possui acervo de quadrinhos para empréstimo a leitores e leitoras. Na Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte - BPIJBH está a gibiteca Antônio Gobbo, que é uma das maiores do Brasil e da América Latina. A Gibiteca foi fundada em 1992, a partir da doação do acervo da Biblioteca Nacional de Histórias em Quadrinhos - BNHQ, coleção particular de Antonio Roque Gobbo. O acervo atual é composto por mais de 18.000 exemplares, dos mais variados gêneros, além de material teórico, contando com exemplares de várias nacionalidades, tal como França, EUA, Portugal, Itália e Espanha. No acervo pode-se encontrar gibis, periódicos, álbuns de quadrinhos, fanzines etc. 
 
Destacamos também a Fanzinoteca Faísca, presente na Biblioteca do Centro Cultural Usina da Cultura, formada a partir de um projeto da Lei Municipal de Incentivo à Cultura para realização da Feira Faísca. A esse acervo inicial foi acrescentado o acervo de zines underground doados pela Gibiteca Antônio Gobbo. Com a iniciativa, nasceu a Fanzinoteca Faísca. Além de fanzines, o acervo é formado por cartazes, folders, cards, folhetos e tudo o mais que tenha um perfil alternativo, embora não necessariamente vinculado a materiais bibliográficos no sentido estrito do termo. Contudo, a Fanzinoteca, embora tenha alguns livros, teve a posterior incorporação dos quadrinhos de super heróis e underground da DC Comics.

Sendo assim, a Coluna Literária busca neste mês celebrar o FIQ BH 2022 e convida leitoras e leitores a expandirem seus horizontes de leitura através da participação no Festival, e ainda comparecendo à rede de bibliotecas, em especial à Gibiteca Antônio Gobbo e à Fanzinoteca Faísca. Será sempre com alegria e disponibilidade de diálogo que receberemos vocês!

Daniela Figueiredo e Samuel Medina
Gerência de Bibliotecas Promoção da Leitura e da Escrita

Resenha - Para além da superfície

“Cachalote”, de Daniel Galera e Rafael Coutinho, editora Quadrinhos na CiaLer “Cachalote”, graphic novel de Daniel Galera e Rafael Coutinho, Quadrinhos na Cia, foi uma experiência de profunda imersão. Ainda que toda a forma de narrativa busque proporcionar a seu leitor essa experiência, creio, existem graus de imersão. Esta será mais profunda de acordo com a empatia do leitor, mas também conforme a competência e a genialidade do artista.

“Cachalote” não só permite o mergulho em vidas alheias como também, através de sua narrativa, busca proporcionar, numa profunda catarse, que o leitor esteja na pele de cada personagem. Ainda que pareça óbvio dizer que sua narrativa é extremamente visual, a expressividade do traço de Rafael Coutinho criou um ambiente quase delirante. Fragmentado, o roteiro guia o olhar do leitor por um universo em que 5 vidas se desdobram. 

“Cachalote” não poupa o leitor, assim como não poupa seus personagens. Construído numa complexidade que torna difícil falar em tema (o que enriquece a obra), pode ter várias interpretações, diferentes interações, como um cubo mágico em quadrinhos. E o tom quase kafkiano que permeia cada história realça essa alegoria. Não só o tom. Há uma sexta história, que entra como prólogo e epílogo da graphic novel, e que faz jus ao título. Ao falar em interpretações, considero por bem fazer menção a duas abordagens: uma, a mais superficial, fala da relação aparência versus essência. A outra, talvez mais profunda, aborda a tensão entre maturidade e criatividade. Talvez maturidade não seja a melhor palavra, mas velhice, ou decrepitude, decadência. A resignada degeneração da beleza.

Essa degeneração deixa lacunas por todo o enredo. Cabe ao leitor completar essas lacunas, intuir os mistérios tecidos em torno dos personagens. Como metáforas de almas velhas, artísticas, que passam por crises criativas, como se encalhadas após sequências de pequenos fracassos que aos poucos se tornaram uma tragédia. E uma ausência de um desfecho tradicional atua como maior alegoria da própria incompletude dos personagens e - talvez - de nós mesmos.  
 
Samuel Medina - Técnico em Literatura
Gerência de Bibliotecas Promoção da Leitura e da Escrita

Resenha - Abrindo as portas do sonhar (e de todo um universo em quadrinhos)

Leitoras da BPIJBH - Rodrigo TeixeiraAntes de responder “Qual é o meu quadrinho favorito?”, acho relevante apresentar o caminho que percorri até chegar lá. Como a grande maioria das crianças brasileiras, nascidas a partir da década de 1970, aprendi a ler com a Turma da Mônica. E as “revistinhas” da turminha criada pelo Maurício de Sousa me acompanharam durante minha infância.

Na adolescência, descobri os quadrinhos de super-heróis: os X-Men, que também já faziam sucesso numa versão em desenho animado. Os mutantes eram exatamente o tipo de heróis que encantavam leitores adolescentes: jovens, superpoderosos, sofriam preconceito, lutavam contra injustiças, inclusive aquelas praticadas pelo governo, e tinham integrantes muito diversos em sua formação.

Os outros super-heróis eu até já conhecia, mas somente em suas versões em audiovisual - os filmes do Super Homem, na década de 1970; as animações dos Superamigos, na década de 1980; e do Batman, a partir dos anos 1990. Mesmo o amigão da vizinhança, o Homem-Aranha, só acompanhei nas aventuras que passavam na TV.

Quando comecei minha graduação em Comunicação Social na UFMG, minha vida, e minhas leituras, começaram a mudar. E foi quando encontrei os quadrinhos que transformaram para sempre a minha concepção de que são e podem ser histórias em quadrinhos. Neste sentido, vou burlar um pouco a pergunta e responder com a série que se tornou meu quadrinho favorito: “Sandman”, de Neil Gaiman, que considero uma das maiores obras-primas da nona arte. Apesar de ser uma série com 75 edições, é possível entendê-la como uma obra única.

Por que Sandman explodiu a minha cabeça? As principais características da série respondem. Para começar, a narrativa criada por Neil Gaiman é simplesmente incrível. Contém elementos de fantasia, de suspense, de referências da cultura pop, de mitologia e de temas relevantes da realidade em uma mistura impecável. E a leitura é muito, muito envolvente. Já nas primeiras páginas do primeiro arco “Prelúdios e Noturnos” somos enredados na misteriosa atmosfera da publicação. E não temos vontade de escapar.

Os Perpétuos, os personagens criados pelo escritor inglês, são fascinantes. Cada um dos sete irmãos desta família pouco convencional - Destino, Morte, Sonho, Destruição, Desejo, Desespero e Delírio - personifica vários aspectos do universo. E o protagonista, também conhecido como Morfeu, é um ser extremamente complexo e apaixonante. Ao longo da série, descobrimos seus segredos, suas conquistas, seus medos, seus amores e seus arrependimentos, pois ser o Lorde do Sonhar é muito mais complicado do que podíamos imaginar.

O universo de Sandman é extremamente rico. Todos os personagens, mesmo aqueles que parecem inicialmente ter pouca relevância ao longo da narrativa, acabam se mostrando pontos e nós cheios de sentido nessa fantástica e enigmática tapeçaria. Da mesma forma, as referências literárias, históricas e culturais fazem da leitura da obra de Neil Gaiman uma jornada maravilhosa.

As capas de Dave McKean são um caso à parte. Os leitores mais atentos, ou mais vorazes, começam a imersão em Sandman a partir daí. Por meio de técnicas variadas como desenho, colagem e pintura, o artista inglês cria artes muito bonitas e repletas de significado.

Por tudo isso, Sandman e Neil Gaiman abriram minha mente e pavimentaram o caminho para que eu compreendesse, e valorizasse, autores como Will Eisner, Alan Moore e todos os maravilhosos talentos brasileiros, com seus quadrinhos autorais, dos mais diversos gêneros.

Convido a todos a conhecer, ou reencontrar, o Sonho, seu maravilhoso reino com seus fantásticos moradores, sua complicada família e sua jornada fascinante.
 
Luciana d'Anunciação
Jornalista, Especialista em Gestão da Comunicação e Mestra em Análise do Discurso. Colaboradora do Site “Garotas Geeks” e da plataforma multimídia “Bar Princesa”.
Para conhecer mais do trabalho da resenha, visite o site


Perfil Literário - Nilson: A Descoberta do Brasil pelo traço.

Nilson Azevedo - Arquivo PessoalNilson Adelino Azevedo nasceu em 8 de agosto de 1948 em Belo Horizonte, mas adotou de coração a cidade de Raul Soares, onde passará toda a sua infância e adolescência. Ela será sua Macondo particular. Muitas de suas criações atestam o amor pela cidade, com seus cabritos, árvores frutíferas, cavalos e ruas de pedras irregulares onde brincava livre. Nelas viveu a felicidade clandestina de que só as crianças são capazes.

Logo, começa a desenhar, mas não são os quadrinhos que o inspiram inicialmente, mas a realidade imediata ao seu redor. Com os desenhos sua criatividade ganha asas. A capacidade de materializar o que a imaginação do brincante deseja, amplia as possibilidades para muito além de qualquer recurso monetário. Uma forma de permanecer criança apesar da idade. Herda a capacidade de narrar da mãe e o humor do pai, que é também um grande contador de “causos”, famoso na cidade. As irmãs mais velhas são o vértice de um ambiente intelectual estimulante onde ele, à medida em que se torna adolescente, transita e do qual se alimenta também.

Ali trava contato com os quadrinhos, que não abandonará jamais. Também o cinema, o rádio e a literatura tornam-se fonte de (res)inspiração, ampliando o universo onírico do menino. Cresce sendo o leitor mais voraz numa família de leitores, imaginador mais audaz numa família de imaginadores.

Vive entre estes mundos: O realismo fantástico e a contracultura emergente do início da década de 60. Nesta atmosfera onírica as vivências mais corriqueiras ganham aura surrealista.

Aos 14 anos, por intermédio da irmã Neide, conhece o cartunista Ziraldo. O encontro é determinante. Com ele, Nilson aprende os rudimentos técnicos da profissão e publica sua primeira história na última edição da célebre revista “Pererê” em 1964. A partir de então, não para mais.

Muda-se aos 18 anos para Belo Horizonte onde acontece outro encontro fundamental: com André Carvalho, editor do suplemento infantil Gurilândia no jornal Estado de Minas. Ousado e inovador, ele dá espaço a novos autores mineiros ainda desconhecidos do público. Nilson estreia na edição 41 com seu personagem Negrim do Pastoreio. Em suas aventuras, Raul Soares emerge com um personagem invisível, mas onipresente. O sucesso é imediato e estratosférico. O público, majoritariamente do interior, se vê nas aventuras da turma do Negrim. Publica ainda charges e cartuns no Jornal do Comércio. De acontecimentos políticos a comentários sociais ou piadas mais ou menos descompromissadas.

Vai para o Rio juntar-se ao esforço de resistência à ditadura de 64, que está em seu momento mais virulento, publicando no jornal O Pasquim. Lá conhece sua maior influência naquele momento: Henfil. Este encontro é determinante para os rumos de sua obra. A convite de Henfil, vai morar em seu apartamento em São Paulo. Nilson não se cansa de reconhecer o valor do quadrinista mineiro e sua influência em seu trabalho e em sua formação como um “ativista do traço”.

Nilson - ProfetasA partir de então, suas charges e cartuns constelarão de forma cada vez mais consistente temas de importância estrutural para o país e o mundo, tais como o trabalho, a pobreza, o imperialismo, o racismo, a mulher, o machismo, a ecologia, a questão indígena, a corrupção, a violência, a polícia, dentre tantos outros, que comentam boa parte da história política do país deste período, trazendo de forma combativa e ousada os temas delicados relacionados à ditadura e seus efeitos nocivos ao Brasil.

Nilson possui a capacidade de identificar estes temas e plasmá-los em charges que, a despeito de estarem circunscritas em sua compreensão pelo assunto político ou social que as evocaram num determinado momento, sobrevivem a ele, desdobrando-se e ganhando novos significados em outros momentos do tempo.

Cria para diferentes públicos personagens cuja atualidade é notável, indo desde a temática rural, com “Negrim do Pastoreio” e “Pingos de Gente”, às aventuras adolescentes no inédito 4 Olho e a crônica autobiográfica com Magrelo. Trata ainda de História e Política, em “Caravela”, “Invasões Portuguesas” e “Pery a Perigo”.

Ao longo das três décadas seguintes publica em diversos jornais de todo o país, além de uma contribuição contínua para os sindicatos da cidade, onde faz do Trabalho e da Política temas centrais e apresenta um registro histórico das relações dos diferentes governos com os sindicatos e os trabalhadores em geral.

Ilustra ainda livros dos mais diferentes assuntos e para públicos variados, da poesia ao livro infantil, institucional e didático, onde emerge outra faceta, poética e sensível, que em sua maioria prescinde mesmo de texto para comunicar sua força e ternura. Em parceria com o cartunista Lor, cria o curso “Qualé a do Batman” onde aborda a técnica e o processo criativo das hqs, sua análise ideológica e seu papel na colonização cultural e no imperialismo.

Cria em parceria com outros quadrinistas mineiros a página Humordaz que acaba se desdobrando na revista mensal, infelizmente censurada pela ditadura. No início dos anos 80 decide reviver o Gurilândia. Surge assim o grupo “Carro de Boi”. O projeto fracassa por conta da hiperinflação do período, que torna impossível manter a publicação que nem chega a ser lançada. O fim da ditadura resultará numa debandada dos cartunistas políticos dos jornais e revistas. A crise ganha contornos de tragédia pessoal para Nilson com a morte de Henfil nos anos 80, vítima do HIV. Revoltado, declara em entrevista que Henfil e seus irmãos foram vítimas do descaso do Estado Brasileiro.

Na década de 90, participa em parceria com o jornalista José Maria Rabelo do programa de televisão “A notícia como ela é”, onde exibe outra de suas facetas: a de um showman capaz de falar dos mais diversos assuntos com originalidade e humor. Na década seguinte, produz vinhetas animadas para a rede Globo de televisão e participa da revista “Bundas”, editada por Ziraldo.

Ao longo de quatro décadas trabalha na imprensa sindical até sua aposentadoria nos anos 2020, mas continua atuante. O Sindieletro lança em sua homenagem “Falando Nilson” Coletânea de trabalhos sindicais e de outras obras escolhidas.

Atualmente, Nilson trabalha na revista digital “A Pirralha”, espera para breve o lançamento de duas edições de uma de suas maiores obras, “Caravela”, simultaneamente no Brasil e Portugal e tem sua obra catalogada e digitalizada com o apoio do Itaú Cultural no projeto “A Descoberta do Brasil pelo Traço”. Sua obra é sem sombra de dúvida, uma prova do que os quadrinhos são capazes.

Erick Azevedo
Artista visual, trabalha principalmente com histórias em quadrinhos, como desenhista e roteirista. É ainda professor de artes e produtor cultural.

Para visitar as Bibliotecas da Rede Pública Municipal de Belo Horizonte e pesquisar seu acervo, acesse informações o site: pbh.gov.br/reaberturabibliotecas   

Coluna Literária | Especial FIQ BH
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