Coluna Literária - Literatura Contemporânea
Foto: Arte/FMCBH

Coluna Literária - Literatura Contemporânea

Apresentação

Esta edição da Coluna Literária apresenta resenhas das obras “Divórcio”, de Ricardo Lísias, e de “Bonsai”, de Alejandro Zambra, e ainda o perfil literário da escritora Verônica Stigger. 

A proposta temática “Literatura Contemporânea” é muito mais um recorte que contempla a diversidade de estilo dessas obras e das propostas desses escritores, que uma tentativa em apresentar ao leitor um conceito fechado do termo, aliás é justamente o contrário, a edição pretende destacar a originalidade das obras escolhidas como potência da literatura contemporânea.

O que essas duas obras apresentam em comum, assim como o trabalho da escritora perfilada, é o uso de outros elementos para além do que se espera de um romance ou novela tradicionais. Por meio da autoficção, do uso de diários pessoais na construção da narrativa, da apresentação gráfica que dialoga com o enredo, do uso de fotografias, imagens de arquivo que conversam com o texto, as histórias desses livros deslocam o leitor/a de um lugar de conforto que outras obras mais tradicionais poderiam propiciar, a ponto de suscitar muitas vezes questões como: é isto literatura?

Por meio da proposta instigante de literatura contemporânea aqui apresentada, é que convidamos a vocês, leitores (as), a se deixarem fisgar por essas leituras potentes em deslocamentos: desvios de rotas recomendados para que se possa ampliar o olhar.

Lídia Mendes - Gerente
Gerência de Bibliotecas Promoção da Leitura e Escrita

Resenha: Divórcio, de Ricardo Lísias

Foto: livro Divórcio, de Ricardo LísiasA obra “Divórcio”, de Ricardo Lísias, editora Alfaguara, é um romance contemporâneo. Publicada em 2013, ela vem levantando muitas discussões e polêmicas. O principal motivo é o tom da narrativa, pois confundimos a imaginação com a realidade. Há passagens, por exemplo, que fazem referência a filmes, livros e a fatos ocorridos na época, como o banimento do diretor Lars von Trier do Festival de Cannes. Durante a leitura, muitas vezes somos confrontados entre o que é a vida pessoal de Ricardo Lísias e o que é ficção. 

O autor que escreve a narrativa é o mesmo que se declara como personagem. Em “Divórcio”, ele fala sobre os momentos vividos após o término do seu primeiro casamento. Baseando-se em suas memórias, ele recria imagens de si que vão desde a infância até o seu casamento. Vemos fotos do seu avô, relatos da sua graduação em Letras na UNICAMP e confissões do diário da sua ex-esposa, o qual ele leu e fez uma cópia em xerox. 

O casal enfrenta o período turbulento que envolve o fim da relação, cada um da sua forma. Enquanto ele, escritor, se isola no seu quarto, ela, jornalista, busca as multidões. Como leitores, podemos tentar avaliar ambas as posições como boas ou ruins, mas há o risco de moralizar a situação. O diário de sua ex-esposa traz os lados da relação até então desconhecidos por Ricardo: seria um problema de ego, por ele não perceber os sinais, ou de falta de sinceridade, por ela guardar seus pensamentos para si? Uma crítica feita por alguém que tem a nossa estima tem um poder a mais? 

O autor é considerado como um dos vinte melhores jovens escritores brasileiros pela revista Granta. Há engenhosidade no processo de construção literária e coragem para expor a sua vida. Mas o livro pode ser lido tanto para entender a vida de Ricardo Lísias, como para pensarmos as relações amorosas na modernidade. O autor também publicou “Cobertor de estrelas” (1999), editora Rocco, e “Duas praças” (2012), editora Biblioteca Azul. Além de “Divórcio”, pela editora Alfaguara foram publicados, também, “O livro dos Mandarins” (2009) e “O céu dos suicidas'' (2012).

Marcus Antonio Neiva Carvalho - Estagiário de Letras 
Diretoria de Promoção dos Direitos Culturais 

Resenha: Bonsai, de Alejandro Zambra

Foto: livro Bonsai, de Alejandro ZambraQuando se trabalha em biblioteca, logo se aprende que o livro é muito mais que a história que ele conta. Tamanho, fonte, diagramação, ilustrações, formato, tipo do papel, todos esses aspectos físicos vão compondo um objeto de arte complexo, que ao se somarem aos enredos, formas de dizer ou de esconder as coisas nas entrelinhas, nos apresentam essa experiência singular da leitura. Talvez por isso, ainda que se leia tanto em telas de telefones e computadores, o livro continua sendo algo tão importante e insubstituível.

Nesse sentido, "Bonsai'', escrito pelo chileno Alejandro Zambra e publicado no Brasil pela finada Cosac & Naif, leva essa noção do livro completo e físico às últimas consequências. De cara não dá pra notar, é um livro como tantos outros. Fino, mais ou menos o mesmo tamanho dos companheiros de estante, sem ilustrações, talvez passe despercebido pelo leitor desatento que passeia e espera que algo chame sua atenção. Começa-se a entender “Bonsai “quando começamos a leitura da história de Julio e Emilia.

“No final, Emilia morre e Julio não morre”, essa revelação que a maioria das pessoas pensa ser algo muito precioso, determinante e que deveria ser guardado para um clímax, um desfecho da história, aparece logo no primeiro parágrafo, de maneira crua, direta e sintética. Síntese, inclusive, é uma palavra importante para pensar o livro. As cenas, as ações, o passar do tempo na história, tudo carrega um ar de velocidade, de resumo, de insinuação. A história é contada como se o autor fosse um amigo, dividindo um caso, uma fofoca, fazendo comentários sobre algo que ele já assistiu, já vivenciou e veio para dividir com o leitor na medida em que vai se lembrando. O coloquial e o poético vão se intercalando nesse jogo astuto que constrói os personagens e também o narrador da história.

Não é difícil pensar que o enredo desse livro seja um conto ou uma novela – e talvez seja! Porém, entendê-lo como um romance é uma possibilidade bastante interessante. A relação com o tempo, os personagens que adentram a história para cumprir suas funções e depois saem, a conclusão do livro não estar relacionada aos desfechos dos protagonistas, mas à conclusão do projeto literário, tudo isso torna possível que se enxergue ali a composição do romance, mas um romance “bonsai”.

O título do romance faz referência tanto ao enredo, uma vez que num determinado ponto da história Julio está escrevendo um livro chamado Bonsai, quanto à forma escolhida pelo autor para narrar sua história. Essa duplicidade é exposta no conceito de bonsai que é descrito no livro: "Um bonsai é uma réplica artística de uma árvore em miniatura. Consta de dois elementos: a árvore viva e o recipiente". No caso do livro, a árvore viva é uma metáfora para a literatura, aquilo que está sendo contado e o recipiente como o objeto físico que se tem nas mãos.

Para que esse movimento não passe despercebido, o autor coloca em seu personagem essa constatação: "Cuidar de um bonsai é como escrever, pensa Julio. Escrever é como cuidar de um bonsai, pensa Julio". O projeto gráfico do livro colabora com essa ideia, uma vez que o texto está sempre no meio da página, como uma página menor, que permitiria a “poda” do excesso de papel branco. No papel da capa, um pontilhado mostra onde o livro pode ser aparado, para finalmente alcançar um formato final, sem sobras.

Por fim, importante frisar que a história de Julio e Emília é também um testemunho do poder que a literatura, em especial a ficção, exerce sobre os leitores, aproximando-os e afastando-os, dando ou tomando o sentido de suas vidas e funcionando como expressão de seus desejos. “Bonsai” é um livro que merece tanto a leitura, quanto a releitura de tempos em tempos, para que se descubra algo novo, algo que havia ficado despercebido e que precisa ser aparado ou apreciado. 

Rodrigo Teixeira - Bibliotecário
Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte

 

Perfil literário: Verônica Stigger -  Descrição do Mundo

Foto: Eduardo SterziNesta edição que destacamos obras cuja intermidialidade é vista nas narrativas, o perfil literário é dedicado à escritora brasileira Verônica Stigger, também jornalista e professora. Verônica é de Porto Alegre, nascida em 1973, seu primeiro romance – "Opisinae Swiata" (2013) –, publicado pela Cosac Naify, recebeu vários prêmios literários: “Prêmio Machado de Assis da Biblioteca Nacional”; “Prêmio São Paulo de Literatura” e “Prêmio Açorianos de Literatura”. A expressão polonesa que dá título ao livro significa “descrição do mundo”. "O livro de contos Sul" (2016), editora 34, foi vencedor do 59º Prêmio Jabuti. Em 2020, a escritora publicou, também de contos, "Sombrio Ermo Turvo", editora Todavia, que ficou entre os cinco finalistas do 62º “Prêmio Jabuti”. 

A produção literária da escritora rompe as fronteiras entre os gêneros textuais, faz diversas colagens em suas narrativas. O romance “Opisinae Swiata” é um relato de viagem e me fez lembrar daqueles cadernos que fazíamos, no meu caso, na adolescência, no qual guardávamos lembranças: a embalagem do bombom recebido do namorado, o porta-copo usado em um bar, um poema que nos tocou, enfim, o velho caderno de recordações ou quem sabe uma versão antiga dos blogs. Em “Sombrio Ermo Turvo” há também esse aspecto: contos, causos, epifanias, poemas e textos de inspiração teatral se misturam nas tramas.

Nas narrativas de Verônica Stigger, vê-se diferentes elementos da intermidialidade, ora utiliza fotos, mescla gêneros literários, ora traz elementos de autoficção. Parece um convite para montar um quebra-cabeças. Em uma entrevista para a revista “Cândido”, a escritora comenta: “...gosto de trabalhar com as diferentes formas literárias, sempre borrando um pouco os limites entre elas...”. 

Outro aspecto importante na obra da escritora é a concepção do projeto gráfico, como visto em “Os anões“ (2010), editora Cosac Naify, livro em formato pequeno, capa dura e textos breves que remetem ao título. Em “Opisinae Swiata” os vários tipos de textos são separados por cores: correspondência, relato de viagem, anúncios e fotografias. A certo ponto da história, trechos da carta escrita pelo personagem Natanael ao pai vão abrindo os capítulos subsequentes. A produção escrita de Verônica Stigger tem ousadia e originalidade na forma e estilo. A escritora tem também publicados: “O trágico e outras comédias” (2003), editora 7 Letras, e “Gran cabaret demenzial” (2007), editora Cosac Naify. Fica então o convite para ir às bibliotecas da Fundação Municipal de Cultura e descobri-la.

Daniela Figueiredo - TNS/Patrimônio Cultural
Gerência de Bibliotecas Promoção da Leitura e Escrita

A favor do contra. Revista Cândido, Paraná, 129, abril, 2022. Disponível no site. Acesso em 16 de maio de 2022.

Para visitar as Bibliotecas da Rede Pública Municipal de Belo Horizonte e pesquisar seu acervo, acesse informações o site: pbh.gov.br/reaberturabibliotecas 

 

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