Coluna Literária - Coleção leve um livro
Foto: Arte/FMCBH

Coluna Literária | Coleção leve um livro

Apresentação

Já pensou em ver uma verdadeira festa de poesia, em que milhares, sim, milhares de livretos com poemas fossem distribuídos gratuitamente por toda a cidade? É sobre um projeto dessa magnitude que iremos falar. A coluna Literária deste mês destaca a coleção Leve Um Livro, projeto aprovado pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura da Prefeitura de Belo Horizonte, que teve como premissa dar visibilidade à poesia de escritoras e escritores de Belo Horizonte, bem como de outros lugares de todo o Brasil.

Durante cada temporada eram distribuídos, mensalmente, livretos de dois poetas, sendo sempre um nome de Belo Horizonte e outro de fora da cidade. Dessa maneira, o projeto propiciou um rico intercâmbio da palavra poética pela cidade. Além disso, contribuiu para que a poesia de poetas locais ficasse mais conhecida entre o público de BH.

Idealizado por Ana Elisa Ribeiro e Bruno Brum, o projeto contou com três edições, chegando ao total de 73 publicações, sendo que foram 71 poetas contemplados. Cada poeta publicava pela coleção uma antologia diminuta de sua obra poética. As edições eram pequenas, arrojadas, cabiam no bolso e poderiam ser acessadas em áudio pelo site do projeto, que esteve no ar enquanto o mesmo ocorreu. Foram três anos de intensa circulação de poesia pela cidade. Os livretos eram impressos e disponibilizados em locais estratégicos da cidade para serem gratuitamente adquiridos.

A logo da coleção transmitia o significado simbólico da iniciativa e trazia um elefante sendo erguido aos céus por um conjunto de balões. Nada mais apropriado para representar a poesia. Afinal, a imagem reúne peso e leveza, requisitos imprescindíveis do fazer poético. A coleção Leve Um Livro teve três temporadas. A primeira aconteceu entre 2014 e 2015, reuniu 25 poetas e distribuiu 60 mil exemplares na cidade. Já a segunda ocorreu em 2016, contou com 24 poetas e teve o total de 60 mil exemplares distribuídos. Por fim, a terceira temporada aconteceu em 2017, reunindo 24 poetas e distribuindo 60 mil exemplares pelas ruas de BH. A terceira temporada contou com um evento de lançamento: o Sarau Leve, contando com participação do Coletivo Simples de Poesia. 

Esta edição da Coluna Literária celebra a efervescência da coleção, trazendo as resenhas dos livretos Dez Poemas, de Leila Míccolis, e Uma rua chamada buraco quente, de Caio Carmacho. O perfil literário é de Letícia Féres.

A coleção também está disponível no SoundCloud, onde os poemas podem ser ouvidos pelas vozes dos próprios poetas. Você também pode acessar o acervo completo da coleção, incluindo os todos os 72 livros de 73 poetas do Brasil. 

Samuel Medina
Gerência de Bibliotecas Promoção da Leitura e da Escrita 

 

 

Não quero morrer de cirrose afetiva | Leila Míccollis" "

É com muito entusiasmo que divulgamos projetos de incentivo à leitura e difusão da leitura, como a Coleção Leve um Livro. Um aspecto que se destaca na proposta é o encontro de diferentes gerações de poetas entre as publicações. A resenha que apresento é do livro Dez Poemas, Leila Míccolis, publicado em 2017, na terceira temporada da coleção. O acerto desta edição da Coluna foi que escolhêssemos o livro por afinidade literária e, neste livreto, a poesia que me tocou forte foi A seco, pois, como escreve a poeta, não quero morrer de cirrose afetiva, na defensiva, por não falar para as pessoas aquilo que penso e sinto. Gosto também da ironia e humor presentes em Oração Infantil, cuja criança pede para receber ao menos uma visita por dia para ser melhor tratada.

Dez Poemas é eclético, aborda sexo, política, amor e feminismo. Escrevo aqui sobre poesia como leitora e, pouco, como entendedora. Gosto de poesia que faz pensar, como nos poemas Devastação e Missão cOmprida, que abordam comportamentos cotidianos que enrijecem nossa alma, enuviando as possibilidades de mudanças em nossas vidas. Aprecio também poemas minimalistas, como Voyeurismo ou amor à primeira vista: "Te olho/Me molho". Então é isso, se gosta de poesia da cena literária, além de baixar gratuitamente os livretos.

Daniela Figueiredo
Gerência de Bibliotecas Promoção da Leitura e da Escrita
MICCOLIS,Leila.10 poemas. Belo Horizonte: Coleção Leve um Livro: 2017. Disponível em: SoundCloud

 

 

Uma rua chamada buraco quente | Caio Carmacho" "

Caio Camacho, paulistano que vive hoje em Piracicaba, teve seus poemas publicados na Coleção Leve um Livro em 2015, sob o título Uma rua chamada Buraco Quente. Enquanto leva o leitor através de suas memórias, sentimentos, experiências e observações do passado que também é presente, o poeta vai expressando sua visão crítica sobre questões sociais relevantes que atualmente inquietam e conduzem à reflexão. Por trás das sutilezas de seus versos, revela-se a imagem de uma sociedade que ainda precisa se repensar e se reconstruir no sentido de ultrapassar certos conceitos. Nesse livro há também aquela beleza que nos toca e nos encanta como no poema Metafísica, por isso indico a leitura e deixo aqui para deleite dos leitores e das leitoras o verso:

você é choro e riso

matéria de que é feito o pão

feito o pão

ponto de partida/

linha de chegada

Kátia Mourão

Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte

CARMACHO, Caio. Uma rua chamada buraco quente. Belo Horizonte: Coleção Leve um Livro:2017.

Disponível em: SoundCloud

 

 

Perfil Literário | Letícia Féres" "
 

Letícia Féres nasceu em Muriaé, Minas Gerais. "Sua mais antiga lembrança de beleza é uma ponta de lápis feita por seu pai". Seus poemas inquietam e, principalmente, provocam que pensemos sobre o que é escrever, editar e ler. E não só textos, poemas, livros, mas nossos corpos. Poeta e editora/editora e poeta, Letícia explicita nosso "vir a ser", nosso "devir", nosso "tornar-se" de uma maneira que aciona nosso repertório teórico, convoca nossas experiências pessoais e desafia brilhantemente o binarismo de gênero. "O corpo é um texto socialmente construído”. Violentamente construído.

Letícia participa do projeto Coleção Leve um Livro com o trabalho Como vai ser este verão, querida?, no qual já percebemos, nos poemas ali reunidos, como a poeta provoca a leitora e o leitor a questionar o alcance, o sentido e a direção do nosso olhar sobre as coisas, as pessoas e suas histórias de vida e também sobre livros. O que é a vida? O que são os livros? O que há por trás de uma cena aparentemente corriqueira? O que significa escrever? O que significa editar? O que significa ler? Ou, ainda e melhor, que experiências são essas? Que transformações nos causam?  

"Escrever é tornar-se, mas não é de modo algum tornar-se escritor. É torna-se outra coisa". Mas se aquele que escreve se torna outra coisa, o que acontece com aquele que lê? E com aquele que lê Letícia Féres o que acontece? Terá que se confrontar com a verdade de também "ter sangue nas mãos"? Ousará questionar o que antes pensava ser "natural"? "Como vai ser este verão, querida?". Não sabemos. E nem os próximos e os próximos e os próximos. Mas teremos que olhar, sim, para os lados, para dentro, para baixo, para cima.

Fica, então, o convite para conhecerem esse trabalho de Letícia Féres, "Como vai ser este verão, Querida?", da Coleção Leve um Livro e outros como: os ebooks Da estranheza das coisas; A cortina o tapete a menina e Meus piores poemas - vol.l. Também seus poemas publicados na Revista de autofagia (BH), no projeto Pliegues despliegues (Argentina/Espanha), nos catálogos do projeto Terças Poéticas, do Palácio das Artes/BH, e do Arte no Ônibus (Prefeitura Municipal de Belo Horizonte). E, ainda, os mais recente como "E outros poemas" (2018), pela editora Urutau - obra finalista do Prêmio Rio de Literatura - e as coletâneas, como I Who Cannot Sing (Gralha, 2020) Resistência dos vaga-lumes: analogia brasileira de escritores LGBTQI+ (Nós,2019).

Érica Lima

Centro Cultura Salgado Filho

 

 

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