Noturno Museus - 2022 - Museus

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  • Coluna Literária - Celebração do Orgulho LGBTQIAPN+
    APRESENTAÇÃO

    Para celebrar o mês do Orgulho LGBTQIAPN+ , a Coluna Literária mostra a diversidade de vozes, corpos e expressões artísticas, reafirmando o papel central da arte nas transformações que queremos e pelas quais lutamos. O símbolo +, na sigla plena de história, propósito e representatividade, sinaliza a busca constante e dinâmica por um maior entendimento e reconhecimento das diversas formas de ser, sentir e viver.

    E é mesmo a pluralidade que marca essa edição comemorativa: o abrir-se para a vida e a arte, ainda na adolescência; o tornar-se e se reconhecer plural e singular ao mesmo tempo; a coragem e a intensidade de expressar o amor e a sexualidade de forma poética.

    Os escritores e as escritoras aqui apresentados e celebrados fazem da letra corpo e do corpo letra, tessitura, texto, voz, invenção, criação, expressão, ativismo e luta. Inscrevem-se no mundo, com sua assinatura única, e o escrevem/reescrevem, apresentam/reapresentam, inventam/reinventam para que todas as pessoas possam existir.
     
    Agradecemos, especialmente, a participação de Fernanda e Carol nesta edição da Coluna, leitoras queridas, participantes da Prosa Poética, realizada todas as terças-feiras na Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte. 

    Comemorem conosco! Boa leitura!

    Érica Lima
    Técnica de Literatura – Centro Cultural Salgado Filho
     


    RESENHA: DANIELLE, ASPERGER

    Escrito por Sophia Mendonça aos 14 anos, o livro “Danielle, Asperger”, publicado pela editora Manduruvá, narra a jornada de uma adolescente que procura compreender-se e encontrar seu lugar no mundo.

    Esta é apenas uma dentre as várias obras da escritora mineira Sophia Mendonça, uma mulher trans e autista, ativista pela visibilidade das pessoas autistas e responsável, juntamente com sua mãe, pelo canal no Youtube “Mundo Autista”.

    A obra faz um passeio pelo cotidiano de Danielle, uma jovem autista ou Asperger - nomenclatura antes utilizada para designar pessoas com transtorno do espectro do autismo de alto funcionamento. 

    Danielle é fã da novela “Vida de Cinderela” e, especialmente, da atriz Sabrina Andrade. Como grande parte dos adolescentes e com uma boa pitada do hiperfoco típico das pessoas autistas, a jovem passa horas pesquisando sobre a vida da atriz e assistindo aos episódios da novela, até mesmo decorando as falas.

    A vida de Danielle segue seu curso com os típicos conflitos da adolescência, até que um concurso de redação abre para a jovem a possibilidade de conhecer pessoalmente Sabrina, seu grande ídolo. Vale ler a obra para descobrir como foi esse tão esperado encontro.

    A autora desenvolve o romance adolescente com grande desenvoltura e vocabulário simples, tornando a leitura agradável e fluida, mesmo quando a protagonista passa por situações difíceis, como problemas no convívio familiar e social, crises, depressão e ansiedade.  

    Fernanda Fernandes Milagres
    Integrante da Prosa Poética BPIJBH

    RESENHA: EXPLORAÇÃO SENSUAL E CELEBRAÇÃO DA DIVERSIDADE: UM OLHAR SOBRE O LIVRO “ERÓTICA: VERSOS LÉSBICOS”

    Na celebração da luta LGBTQIAPN+ é importante destacar a diversidade em todas as suas formas, incluindo expressões artísticas. O livro de poemas eróticos que tenho o prazer de resenhar é uma obra feita por 80 poetas lésbicas e bissexuais, publicado pela editora Tucum. As narrativas ousam explorar a sensualidade e o desejo através das palavras. O livro oferece uma visão corajosa e inclusiva da sexualidade, celebrando a riqueza e a complexidade das experiências, destacando-se pela abordagem poética da sexualidade. 

    As autoras demonstram habilidade em explorar o corpo, a sensualidade e o desejo de forma sensível e artística. Tanto explicitamente como com metáforas e linguagem sensual, os poemas capturam a emoção e a intensidade dos momentos íntimos, celebrando a experiência humana de maneira autêntica.

    O livro não se limita a uma única visão da sexualidade, na verdade são 80 perspectivas, abraçando a diversidade própria de cada poeta. Assim, eu como leitora,  senti-me encantada e envolvida com toda essa linguística divergente e sensual.

    Há um poema, de Nina Maria, que encontrei alguns trechos que descrevem bem essa sensação: “Sou tempestade,/vendaval,/ tsunami e terremoto/ porque não vou conter minha intensidade por você/.../eu entendo/ compreendo,/ não julgo/ a sociedade não está preparada/ para a força e o poder de/ das mulheres se amando” (p.29).

    Vejo o mundo mudando, aos poucos, mas já vejo avanços. Percebo neste livro uma possibilidade incrível de trazer ao mundo, não só uma visão do que é erótico para o grupo LGBTQIAPN+, mas para todos. Uma visão de mulheres com muito amor, sensualidade e erotismo. Inclusive, um poema que me marcou: o cântico hebraico, de  Rivka Ramos Mendes.

    Acho esse livro uma escolha oportuna e significativa para ser comentado hoje, ao destacar a sexualidade e o desejo de querer, de ser desejada, de aceitar a si mesma e à outra. A obra reafirma a importância da visibilidade e do orgulho LGBTQIAPN+. Além disso, a abordagem artística literária amplia o diálogo sobre a sexualidade, desafiando o estigma e promovendo a aceitação. O livro é um lembrete poderoso de que a expressão escrita pode ser uma forma de ativismo de comemoração das identidades e experiências.

    Recomendo a todas as pessoas esta obra maravilhosa, com visões eróticas feitas por mulheres que amam mulheres - uma experiência poética que desafia e celebra a riqueza feminina.


      Ana Carolina Macedo Barbosa
    Escritora, poeta, professora de yoga, acupunturista e reikiana
    Integrante da Prosa Poética BPIJBH

    PERFIL LITERÁRIO - JOMAKA

    Foto Jomaka - perfil (Luísa Lagoeiro)Jomaka – poeta belorizontino  –   tem trajetória artística singular na cena literária da cidade, incorpora a luta antimanicomial e pelos movimentos LGBTQIAPN+ em sua produção artística. Auto define-se como poeta antimanicomial, artista da cena, performer e agitador cultural.

    Escreveu o livro de poesia “Generalidades ou Passarinho Loque Esse”, vol.1, publicado pela editora Impressões de Minas. A publicação é o primeiro volume da coleção “Ouvido Falante”, cujos poetas apresentam suas produções artísticas a partir da performance oral em diferentes espaços coletivos da poesia falada – Saraus, Slam’s e Rodas de Poesia. Tem ainda textos publicados em antologias, revistas e coletâneas, como “Solilóquio e outras formas de encurtar distâncias", publicado pela editora Venas Abiertas.

    Em 2019, organizou a Coletânea Academia TransLiterária pela editora Marginália para celebrar os três anos de existência do coletivo. Quando falamos de arte, no caso de Jomaka, não falamos apenas da literatura. Avesso a qualquer binaridade, JoMaka é plural: pesquisador, tradutor, revisor e palestrante. Sua escrita é potente e vivaz, como deixa ver o poema “Intersexo”, publicado no periodico eletrônico “Ruído Manifesto”: 
     
    INTERSEXO 

    algumas vezes eu disse do buraco 
    nenhum a mais ou a menos buracos no corpo
    eu dizia dos buracos de dentro 
    sobre aqueles que eu fazia perguntas
    sobre os buracos de respostas
    escondidas 
     
    algumas vezes eu disse do buraco 
    outras vezes eu caí 
    buraco fundo 
    buraco adentro 
    refém de um silêncio 
    ou de vários

    Para além da literatura, Jomaka tem publicados roteiros e textos dramatúrgicos. Em breve, lançará o volume 2 da trilogia coleção “Ouvido Falante”:  “Embreagencer”, da editora Impressões de Minas. Quer conhecer mais sobre a obra do poeta? Acesse no site

    Daniela Figueiredo
    Gerente da Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte BPIJBH

     

     

  • Coluna Literária - Clássicos para Hoje

    A ideia de criação da Coluna Literária surge da necessidade de reafirmar o compromisso da rede de bibliotecas com a valorização da literatura. A iniciativa pretende difundir o acervo das bibliotecas públicas da Fundação Municipal de Cultura, localizadas em todas as regionais de Belo Horizonte. É também uma proposta de giro pela cena literária e outras produções escritas.

    A iniciativa envolve a colaboração dos profissionais que atuam nas bibliotecas: a Coluna Literária é criada a muitas mãos! A partir de escolhas temáticas variadas, a publicação deseja aproximar leitoras e leitores das bibliotecas, dos livros e da literatura. 

    Acompanhe nossas publicações mensalmente, toda 4ª quarta-feira do mês você encontrará, aqui no blog do Portal Belo Horizonte, uma nova edição.

     

    Apresentação da 3ª Edição

    A edição “Clássicos para hoje” se vale de preciosas obras literárias e autores que estão em domínio público: Relíquias de Casa Velha, de Machado de Assis, que veio a público em 1906, e A alma encantadora das ruas, de João do Rio, lançado em 1908. Por meio de resenhas críticas que coadunam estas produções literárias com a nossa atualidade, o convite aos leitores e leitoras é para que visitem (ou revisitem) essas obras com olhar atualizado da realidade social brasileira. O perfil de Maria Firmina dos Reis apresenta a potência dessa intelectual à frente do seu tempo, e o reconhecimento póstumo de seu trabalho, fundamental para nossa história da literatura brasileira.

    É fundamental que se observe que as obras e autorias selecionadas falam de um Brasil do passado que se reflete também em nossa atualidade. Sendo assim, o olhar de cada escritora e escritor que trazemos aqui mostra como suas obras estão investidas de um caráter ainda mais atual. Desta forma, convidamos leitoras e leitores a se debruçar sobre textos que de modo algum são arcaicos ou desatualizados. Mais do que um interesse histórico, as obras aqui apresentadas convidam-nos a um olhar sociológico e até mesmo empírico, pois muitas das situações retratadas e críticas feitas ainda permanecem nas estruturas de nossa sociedade.

    Por fim, desejamos a todas e todos uma leitura agradável e proveitosa. E sabemos que além das pautas fundamentais de lutas diárias para uma sociedade mais justa e igualitária, o que nos move é também o interesse pela boa literatura. E certamente vocês a encontrarão nas obras que aqui se apresentam.

    Lídia Mendes e Samuel Medina 

    Redimir o passado, redimir o presente

    Relíquias de Casa Velha veio a público em 1906. Último livro organizado por Machado de Assis, reúne contos, poesia, teatro e textos não-ficcionais. A miscelânea de textos (gêneros muito variados), a menor ênfase nos estudos da produção contista de Machado de Assis (prevalecem em número e profundidade as análises de seus romances) e a aparente aleatoriedade na escolha do material de Relíquias não motivaram ainda maiores apreciações de todo seu valor.

    O convite aqui, leitora amiga, leitor amigo, é para lermos Relíquias de Casa Velha com um olho no passado e outro no presente. Vamos, sim, com certeza, apreciar a maestria de Machado de Assis em tratar dos grandes temas de certos aspectos da condição humana: o amor (perdido, não correspondido), desejos de traição, amizade, morte. Mas vamos, principalmente, essa é a proposta, pensar, junto com Machado, o Brasil e suas questões mais pungentes.

    Não somos as primeiras a indicar uma “unidade temática” do livro, diante da já mencionada “aparente aleatoriedade”. Mas também não somos ainda muitas. Longe de propor anacronismos e aproximações absurdas, o que queremos é que, deleitando-se com os textos, vocês pensem, também, nas contradições do nosso presente republicano.

    O “presente republicano” da época de Machado de Assis não é idêntico ao nosso e nem poderia ser. Mas a leitura de Relíquias mostra-nos o quanto “um certo passado” não passou e “um certo futuro” ainda não chegou.
    O que se segue agora são insinuações e provocações, pois, afinal, trata-se de um texto curto, e, ademais, a leitura será sua, leitora amiga, leitor amigo, bem como as impressões e críticas. Em “Pai contra mãe” observem a permanência dos efeitos ainda do escravagismo no Brasil: que “ofícios e aparelhos” do escravagismo desapareceram com a abolição e quais outros entraram em ação?  Em “Maria Cora” e “Um capitão de Voluntários”, soam familiares as discussões sobre patriotismo, federalismo, as Forças Armadas e suas “guerras”? Em “Suje-se Gordo”, por acaso, chama-lhes a atenção o injusto tratamento desigual de réus de classes sociais e econômicas diferentes?

    Não vamos adiante. Mas esperamos que vocês vão e que não tenhamos “tirado seu sono”, mas desejado um despertar para “dias melhores”. Entender para mudar. Não deixem de lado as peças de teatro, nem os textos não-ficcionais. Não deixem também que a morte que nos ronda, nos textos e na vida, no passado e no presente, paralise o seu pensar. Que ela motive reflexão e ação. E deliciem-se, é claro, com a ironia machadiana.

     
    Érica Lima

    ASSIS, Machado de (1839-1908). Relíquias de Casa Velha. Rio de Janeiro, 1906.

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    O encanto das ruas

    Neste livro de crônicas de João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, mais conhecido por seu pseudônimo literário, João do Rio, o autor nos proporciona a experiência de vislumbrar as ruas — não como um lugar de passagem, um lugar onde pessoas caminham e meios de transporte passam —, mas como um organismo vivo que tem o poder de nos mostrar a cultura mais inconsciente e arraigada do povo que nelas circula. João do Rio nos permite ver as figuras que seriam invisíveis, as facetas mais escondidas e singelas da sociedade que toma conta destes caminhos. Lançado em 1908, o autor declara neste livro seu amor por estas ruas, e entre os motivos para amá-las aponta a capacidade dessas ruas de nos permitirem testemunhar os acontecimentos e os sentimentos mais controversos.

    Entre aqueles que personificam essas ruas, João do Rio elenca os profissionais que fazem delas seu local de trabalho, que dependem da circulação de pessoas nestes lugares, e que fazem estes locais tão fascinantes. Fala sobre o papel das ruas na religiosidade das pessoas, e da expressão alegre dos cordões, que hoje chamamos de blocos de rua, das faces da miséria que estava escancarada nas ruas daquele tempo, tal qual ainda hoje. Expõe a relação da polícia com os que passam, com os que infringem a lei, ou com os que parecem ser abordados por suas características como se fossem elas próprias contra a lei. As crônicas falam da maldade, da fome, da mendicância, da exploração infantil escancaradas nestas veias das cidades, aldeias, povoados, dos crimes vinculados (erroneamente) ao amor ou à falta dele. O autor nos apresenta também a musa destas ruas, aquela possível, próxima a todos, aquela que faz enxergar poesia, música e dança nestas ruas. Tudo isso é apresentado aos leitores misturando prosa e poesia, dureza e delicadeza, amor e ódio, preconceito e aceitação.

    Este livro nos permite pensar na relação que temos com as ruas hoje, em como o olhar de um século atrás se contrapõe, mas também se aproxima ainda hoje com nosso olhar sobre as mesmas características, sentimentos, personagens e mazelas. Exige de nós lê-lo com o contexto histórico em mente, mas com o olhar dos tempos atuais para perceber o que ali está em descompasso com a sociedade de hoje, tanto a real como a que queremos alcançar. Vale a pena se encantar com as ruas vistas pelo olhar de João do Rio, vale também olhar com encantamento para as nossas ruas de hoje, a partir desse vislumbre que o autor nos proporciona.

    Ericka Martin

    JOÃO, do Rio (1881-1921). A alma encantadora das ruas. Rio de Janeiro, 1908. 

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    Perfil Literário: Maria Firmina dos Reis - Uma escritora contra o Mundo
     

    Não é novidade que o Brasil possui uma enorme chaga em sua história: o período da escravidão. Seus reflexos e mazelas continuam. Os silenciamentos são históricos e uma das provas irrefutáveis disso é o fato de que uma grande escritora brasileira permaneceu incógnita por praticamente um século. 

    Estou falando da maranhense Maria Firmina dos Reis. Autora situada no período histórico do romantismo, apresenta um texto ficcional que não se prende aos meros padrões estéticos e temáticos. Seu texto, embora apresente um meticuloso cuidado com a qualidade literária, apresenta-se também com um firme engajamento. Seu livro mais conhecido é Úrsula, que também é seu romance de estreia. Contudo, não é oúnico trabalho literário da escritora. E também não é seu único feito.

    Professora, Maria Firmina dos Reis também atuou ativamente na luta pela educação das mulheres e meninas, tendo fundado a primeira escola mista do Maranhão em 1880. A reação foi tão contundente que a escola durou apenas 2 anos. 

    Ainda que a obra de Maria Firmina dos Reis tenha ficado esquecida por tantos anos, seu romance Úrsula foi redescoberto em um sebo, em 1962. A imagem dela foi imortalizada em um busto em 1975, instalado na Praça do Pantheon, em São Luís, junto às mais ilustres figuras da história literária maranhense.

    Justiça, porém, foi feita somente na atualidade, com a recuperação da memória de tão grande autora, não apenas por seu papel na luta contra o escravagismo, mas também de sua obra literária, que apresenta alta qualidade estética e busca explorar os elementos do Romantismo, escapando de soluções fáceis e finais felizes. Sua obra completa foi republicada em 2017. Dessa forma, a autora acaba por ultrapassar os limites da corrente literária e faz de sua ficção um manifesto contra as mazelas que até hoje continuam a grassar covardemente o mundo. E, infelizmente, nosso país.

    Samuel Medina 

    Referências: 

    https://www.bbc.com/portuguese/geral-53411587

    http://www.letras.ufmg.br/literafro/autoras/322-maria-firmina-dos-reis

    https://mariafirmina.org.br/

    Reis, Maria Firmina dos, 1825-1917. Úrsula e outras obras ; prefácios de Ana Maria Haddad Baptista e Danglei de Castro Pereira. – 2. ed. – Brasília : Câmara dos Deputados, Edições Câmara, 2019. 

    Link para baixar a obra

     

     

  • Coluna Literária | Coleção leve um livro

    Apresentação

    Já pensou em ver uma verdadeira festa de poesia, em que milhares, sim, milhares de livretos com poemas fossem distribuídos gratuitamente por toda a cidade? É sobre um projeto dessa magnitude que iremos falar. A coluna Literária deste mês destaca a coleção Leve Um Livro, projeto aprovado pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura da Prefeitura de Belo Horizonte, que teve como premissa dar visibilidade à poesia de escritoras e escritores de Belo Horizonte, bem como de outros lugares de todo o Brasil.

    Durante cada temporada eram distribuídos, mensalmente, livretos de dois poetas, sendo sempre um nome de Belo Horizonte e outro de fora da cidade. Dessa maneira, o projeto propiciou um rico intercâmbio da palavra poética pela cidade. Além disso, contribuiu para que a poesia de poetas locais ficasse mais conhecida entre o público de BH.

    Idealizado por Ana Elisa Ribeiro e Bruno Brum, o projeto contou com três edições, chegando ao total de 73 publicações, sendo que foram 71 poetas contemplados. Cada poeta publicava pela coleção uma antologia diminuta de sua obra poética. As edições eram pequenas, arrojadas, cabiam no bolso e poderiam ser acessadas em áudio pelo site do projeto, que esteve no ar enquanto o mesmo ocorreu. Foram três anos de intensa circulação de poesia pela cidade. Os livretos eram impressos e disponibilizados em locais estratégicos da cidade para serem gratuitamente adquiridos.

    A logo da coleção transmitia o significado simbólico da iniciativa e trazia um elefante sendo erguido aos céus por um conjunto de balões. Nada mais apropriado para representar a poesia. Afinal, a imagem reúne peso e leveza, requisitos imprescindíveis do fazer poético. A coleção Leve Um Livro teve três temporadas. A primeira aconteceu entre 2014 e 2015, reuniu 25 poetas e distribuiu 60 mil exemplares na cidade. Já a segunda ocorreu em 2016, contou com 24 poetas e teve o total de 60 mil exemplares distribuídos. Por fim, a terceira temporada aconteceu em 2017, reunindo 24 poetas e distribuindo 60 mil exemplares pelas ruas de BH. A terceira temporada contou com um evento de lançamento: o Sarau Leve, contando com participação do Coletivo Simples de Poesia. 

    Esta edição da Coluna Literária celebra a efervescência da coleção, trazendo as resenhas dos livretos Dez Poemas, de Leila Míccolis, e Uma rua chamada buraco quente, de Caio Carmacho. O perfil literário é de Letícia Féres.

    A coleção também está disponível no SoundCloud, onde os poemas podem ser ouvidos pelas vozes dos próprios poetas. Você também pode acessar o acervo completo da coleção, incluindo os todos os 72 livros de 73 poetas do Brasil. 

    Samuel Medina
    Gerência de Bibliotecas Promoção da Leitura e da Escrita 

     

     

    Não quero morrer de cirrose afetiva | Leila Míccollis" "

    É com muito entusiasmo que divulgamos projetos de incentivo à leitura e difusão da leitura, como a Coleção Leve um Livro. Um aspecto que se destaca na proposta é o encontro de diferentes gerações de poetas entre as publicações. A resenha que apresento é do livro Dez Poemas, Leila Míccolis, publicado em 2017, na terceira temporada da coleção. O acerto desta edição da Coluna foi que escolhêssemos o livro por afinidade literária e, neste livreto, a poesia que me tocou forte foi A seco, pois, como escreve a poeta, não quero morrer de cirrose afetiva, na defensiva, por não falar para as pessoas aquilo que penso e sinto. Gosto também da ironia e humor presentes em Oração Infantil, cuja criança pede para receber ao menos uma visita por dia para ser melhor tratada.

    Dez Poemas é eclético, aborda sexo, política, amor e feminismo. Escrevo aqui sobre poesia como leitora e, pouco, como entendedora. Gosto de poesia que faz pensar, como nos poemas Devastação e Missão cOmprida, que abordam comportamentos cotidianos que enrijecem nossa alma, enuviando as possibilidades de mudanças em nossas vidas. Aprecio também poemas minimalistas, como Voyeurismo ou amor à primeira vista: "Te olho/Me molho". Então é isso, se gosta de poesia da cena literária, além de baixar gratuitamente os livretos.

    Daniela Figueiredo
    Gerência de Bibliotecas Promoção da Leitura e da Escrita
    MICCOLIS,Leila.10 poemas. Belo Horizonte: Coleção Leve um Livro: 2017. Disponível em: SoundCloud

     

     

    Uma rua chamada buraco quente | Caio Carmacho" "

    Caio Camacho, paulistano que vive hoje em Piracicaba, teve seus poemas publicados na Coleção Leve um Livro em 2015, sob o título Uma rua chamada Buraco Quente. Enquanto leva o leitor através de suas memórias, sentimentos, experiências e observações do passado que também é presente, o poeta vai expressando sua visão crítica sobre questões sociais relevantes que atualmente inquietam e conduzem à reflexão. Por trás das sutilezas de seus versos, revela-se a imagem de uma sociedade que ainda precisa se repensar e se reconstruir no sentido de ultrapassar certos conceitos. Nesse livro há também aquela beleza que nos toca e nos encanta como no poema Metafísica, por isso indico a leitura e deixo aqui para deleite dos leitores e das leitoras o verso:

    você é choro e riso

    matéria de que é feito o pão

    feito o pão

    ponto de partida/

    linha de chegada

    Kátia Mourão

    Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte

    CARMACHO, Caio. Uma rua chamada buraco quente. Belo Horizonte: Coleção Leve um Livro:2017.

    Disponível em: SoundCloud

     

     

    Perfil Literário | Letícia Féres" "
     

    Letícia Féres nasceu em Muriaé, Minas Gerais. "Sua mais antiga lembrança de beleza é uma ponta de lápis feita por seu pai". Seus poemas inquietam e, principalmente, provocam que pensemos sobre o que é escrever, editar e ler. E não só textos, poemas, livros, mas nossos corpos. Poeta e editora/editora e poeta, Letícia explicita nosso "vir a ser", nosso "devir", nosso "tornar-se" de uma maneira que aciona nosso repertório teórico, convoca nossas experiências pessoais e desafia brilhantemente o binarismo de gênero. "O corpo é um texto socialmente construído”. Violentamente construído.

    Letícia participa do projeto Coleção Leve um Livro com o trabalho Como vai ser este verão, querida?, no qual já percebemos, nos poemas ali reunidos, como a poeta provoca a leitora e o leitor a questionar o alcance, o sentido e a direção do nosso olhar sobre as coisas, as pessoas e suas histórias de vida e também sobre livros. O que é a vida? O que são os livros? O que há por trás de uma cena aparentemente corriqueira? O que significa escrever? O que significa editar? O que significa ler? Ou, ainda e melhor, que experiências são essas? Que transformações nos causam?  

    "Escrever é tornar-se, mas não é de modo algum tornar-se escritor. É torna-se outra coisa". Mas se aquele que escreve se torna outra coisa, o que acontece com aquele que lê? E com aquele que lê Letícia Féres o que acontece? Terá que se confrontar com a verdade de também "ter sangue nas mãos"? Ousará questionar o que antes pensava ser "natural"? "Como vai ser este verão, querida?". Não sabemos. E nem os próximos e os próximos e os próximos. Mas teremos que olhar, sim, para os lados, para dentro, para baixo, para cima.

    Fica, então, o convite para conhecerem esse trabalho de Letícia Féres, "Como vai ser este verão, Querida?", da Coleção Leve um Livro e outros como: os ebooks Da estranheza das coisas; A cortina o tapete a menina e Meus piores poemas - vol.l. Também seus poemas publicados na Revista de autofagia (BH), no projeto Pliegues despliegues (Argentina/Espanha), nos catálogos do projeto Terças Poéticas, do Palácio das Artes/BH, e do Arte no Ônibus (Prefeitura Municipal de Belo Horizonte). E, ainda, os mais recente como "E outros poemas" (2018), pela editora Urutau - obra finalista do Prêmio Rio de Literatura - e as coletâneas, como I Who Cannot Sing (Gralha, 2020) Resistência dos vaga-lumes: analogia brasileira de escritores LGBTQI+ (Nós,2019).

    Érica Lima

    Centro Cultura Salgado Filho