Noturno Museus - 2022 - Museus

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  • Coluna Literária – Literatura para as infâncias: o que os livros nos ensinam?
    Apresentação

    Essa é a primeira coluna literária a abordar livros produzidos para crianças. Nós, que trabalhamos com bibliotecas, dedicamos grande parte do nosso tempo (e afeto, também!) lendo, discutindo, aprendendo sobre esse tipo particular de obra. As crianças são muito presentes no cotidiano das bibliotecas e para nós é muito importante estimular que elas se relacionem com livros, histórias, autores e todo o universo da literatura.

    No geral, tudo nos livros para crianças é diferente do que comumente se edita para adultos, desde a extensão do texto, o projeto editorial, a linguagem, a relação com a ilustração. É fácil encarar essas diferenças como "facilitadores" ou "filtros", como se o texto para a criança não precisasse ser complexo, poético, desafiador.

    Há nessa noção dois problemas. Um em relação às crianças, outro em relação aos livros. Quando se pensa no livro para crianças como um objeto "menor", uma literatura "menor", é porque também se possui um conceito de criança como um indivíduo inferior e limitado, quando comparado ao adulto.

    Entretanto, as crianças são sujeitos complexos, questionadores e curiosos. Estão em busca de entender seu papel no mundo e se questionam sobre tudo o que existe, como qualquer adulto (às vezes até mais). Livros para crianças procuram dialogar com seus anseios e, tanto quanto qualquer literatura “adulta”, ser poéticos e incômodos.

    O que nos traz ao recorte que escolhemos para o tema da coluna: o que esses livros ensinam? Essa pergunta é recorrentemente feita por pais e professores, em busca de auxílio para o processo de desenvolvimento infantil, a transmissão dos hábitos, dos valores, uma forma de mediar conversas delicadas. E livros nos ajudam muito com isso… também. Mas é muito importante saber que a literatura e as artes visuais, por mais que comuniquem, transmitam, ensinem e apontem, têm uma função muito maior em fazer algo como o oposto disso, caminhando na direção da perplexidade, do espanto. Ao invés de solucionar uma dúvida, a boa literatura geralmente nos apresenta um universo ainda maior e mais complexo do que o que tínhamos em mente, antes de iniciarmos a leitura. Talvez mais que os assuntos abordados, os livros nos ensinem sobre uma forma de olhar o mundo em silêncio, ou nos ajudem a criar a coragem necessária para indagá-lo, com voz firme e cabeça erguida.

    Isso fica muito claro nos livros que escolhemos para apresentar desta vez: Érica Lima fala de “Para onde vamos”, de Jairo Buitrago e Rafael Yockteng, editado pela Pulo do Gato; Eva Martins resenha “O homem que amava caixas”, de Stephen Michael King, um clássico da Brinque-Book; e Daniela Figueiredo traz o perfil literário da autora portuguesa Isabel Minhós.

    Finalizo com uma pequena anedota sobre livros e leitores. Conta-se que, certa feita, perguntaram à  ngela Lago, autora e ilustradora de livros para crianças, sobre o que os livros ensinam e ela respondeu com a ironia que seus leitores conhecem bem, dizendo “Os livros não ensinam nada. Mas a gente aprende, mesmo assim”.

    Rodrigo Teixeira
    Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte - BPIJ-BH

    Perfil literário – Literatura para crianças capaz de alçar voos

    Foto: Isabel Minhós Martins/Divulgação Atualmente, faço parte da Comissão de Seleção de Acervo da Fundação Municipal de Cultura, atividade que exerço com extremo prazer, particularmente quando estou pesquisando a literatura infantil. Nessa trajetória, vou criando vínculos com autores, autoras, ilustradores e ilustradoras do Brasil e do resto do mundo. Por isso, nesta edição da coluna, apresento o perfil literário de Isabel Minhós Martins, escritora portuguesa, uma das fundadoras da editora “Planeta Tangerina”.

    No difícil contexto em que vivemos atualmente, o cenário da literatura infantil nos traz acalento, pois há tantos livros bonitos, sensíveis, com projetos gráficos surpreendentes e temáticas relevantes. Em outros tempos, algumas abordagens seriam inimagináveis nos livros para as crianças – morte, questões de gênero, abandono, separação, trabalho infantil, guerras – só para citar algumas. Isabel Minhós está totalmente conectada à evolução da produção literária para crianças. A escritora tem vários livros publicados no Brasil, disponíveis para empréstimo na rede de bibliotecas da FMC. Lançados pela editora Peirópolis, há “O mundo num segundo” (2013); “Obrigada a todos!” (2016); “Enquanto meu cabelo crescia” (2013); e “Com o tempo” (2015). “Andar por aí” (2017) e “É mesmo você” (2017) são da editora 34. E, ainda, “Lá em casa somos” (2012), ed. Cosac & Naify; e “A grande invasão” (2009), ed. Panda Books.

    Mas, afinal, o que os livros nos ensinam? Compreendo que a aprendizagem com os livros de literatura na infância requer o compromisso de apresentar-lhes textos capazes de alça-las “para além das restrições da vida cotidiana” (COMPAGNON, 2012, p. 60). É nessa direção que vai a produção literária de Isabel Minhós. A irreverência de suas obras já é notada nos projetos gráficos, como em “O mundo num segundo”, ilustrado por Bernardo Carvalho, que tem quase o tamanho de um livro de bolso. As imagens lembram os quadrinhos e ocupam a página inteira, além de serem bastante coloridas e alegres. Outra característica que se destaca é a criatividade com que as narrativas são construídas a partir de situações inusitadas: “Enquanto você vira a página deste livro, o mundo não para.../Um barco é surpreendido por uma tempestade no Mar Báltico” e, assim, continua a história. Em “Obrigado a todos!”, ilustrado por Bernardo Carvalho, a escritora faz um jogo de contrários: “Tenho aprendido muitas coisas/Minha madrinha continua a me dizer “Tenho tanto para te ensinar...”. 

    Chegando ainda mais perto da pergunta que dá título a esta edição da coluna, quero comentar sobre o meu livro preferido, “Lá em casa somos”, ilustrado por Madalena Matoso. Para aqueles que procuram conteúdos específicos nos livros infantis, a fim de ensinar algo às crianças, talvez esta obra seja associada ao ensino das partes do corpo humano ou aprender a contar e compreendo que não há problema nisso. O problema é quando a potência da literatura – linguagem, ilustração, projeto gráfico, poesia, ritmo, enredo etc. – , como se vê em “Lá em casa somos”, deixa de ser protagonista nas práticas leitoras, ficando reduzida à mera ferramenta de ensino. Isto é, o encontro entre leitores e livros, como possibilidade de trocas, descobertas, construção de significados, negociação de sentidos, é esvaziado. Então, se ainda não conhece a produção literária de Isabel Minhós para as crianças, eis o convite para descobri-la.

    Daniela Figueiredo
    Gerência de Bibliotecas Promoção da Leitura e Escrita - GBPLE

    COMPAGNON, Antoine. Literatura para quê. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2009.

    Entre muros e pontes: para onde vamos?

    “Para os andarilhos invisíveis que atravessam os países”.
    JB 

    Entre muros e pontes: para onde vamos?Para onde vamos, entre tantos muros (e não são poucos) que dividem o nosso mundo? Para que serve um muro? Quais as pontes possíveis? Das muralhas que protegiam e delimitavam impérios, passando pelas cidades fortificadas da Idade Média, até os muros contemporâneos, o que realmente nos separa e o que nos une? Se buscarmos essas respostas na História – um exercício necessário, principalmente no momento atual –, o que aprendemos? E se buscarmos as respostas nas histórias, mais precisamente nas histórias que se produzem para as infâncias, nos livros de ficção a elas destinados? O que eles nos ensinam?

    No percurso (e discurso) histórico, uma motivação aparece em destaque: a segurança. A Muralha da China, a Muralha de Adriano e os muros que delimitavam e protegiam as cidades da Idade Média de constantes ataques são exemplos. Ainda, os motivos religiosos, como testemunham a Muralha de Avignon e a Muralha de Carcassonne. Também as motivações político-religiosas, como nas Linhas de Paz, em Belfast, nas Muralhas de Bagdá, ou as divisões político-ideológicas, como na barreira que divide as fronteiras da Coreia do Sul da Coreia do Norte, ou, no mais famoso, o Muro de Berlim. A partir desse rápido panorama e nos aprofundando na miríade de muros que compartimentam nosso mundo, desde há muito, assoma-se uma percepção: os discursos de segurança, nacionalismo, territorialismo, religiosos, políticos e ideológicos se misturam e criam narrativas repletas de violência e, para alguns, de espanto. Narrativas que motivam e justificam barbaridades há tempos jurídica e eticamente condenadas. Em oposição, vemos surgirem, ainda no movimento histórico, mas não só, contranarrativas que buscam criar pontes, num momento em que elas, devido à radical polarização em que vivemos, parecem impossíveis.

    Mas e no campo da literatura, da literatura para as infâncias, como entender o que faz muro e o que faz ponte? Com texto de Jairo Buitrago, ilustrações de Rafael Yockteng e tradução de Márcia Leite, o livro “Para onde vamos”, da editora Pulo do Gato, promove o movimento necessário: a história de uma menina, que viaja com seu pai, sem saber para onde vai, comove, sensibiliza e, principalmente, faz pensar. Enquanto viaja, a menina vai contando tudo o que vê: cinco vacas, quatro galinhas e um coiote, que, para ela, é o nome dado pelo seu pai a um “cachorro grande”, sempre presente na viagem. As ilustrações, em rico e nada banal diálogo com o texto em palavras, revelam-nos de que viagem se trata: a travessia da fronteira do México com os Estados Unidos. As palavras nos conduzem pelo raciocínio infantil, que, ainda que busque por respostas – para onde vamos? pergunta a menina por diversas vezes –, abre-se ao encontro: com a paisagem, os animais, as pessoas, as estrelas. Uma amizade com uma outra criança, ainda que breve. A contemplação do céu, a percepção das expressões das pessoas, o sonho. As ilustrações situam-nos na dura realidade dos que precisam partir em busca de melhores condições de vida, mas também não abandonam a pureza do olhar da criança. Somos afetados: tudo o que sabemos sobre a dura realidade dos refugiados, dos migrantes, dos “andarilhos invisíveis” se choca, mescla-se e se amplia pelo contato com a esperança. Enquanto seu pai conta o pouco dinheiro restante na carteira, a menina se deslumbra com um presente recebido: dois coelhos brancos. E a viagem continua.

    Érica Lima
    Biblioteca Centro Cultural Salgado Filho

    BUITRAGO,  Jairo. Para onde vamos. São Paulo: Pulo do Gato, 2016.

    O Homem que amava caixas 

    Foto: O Homem que amava caixas A história de “O Homem que amava caixas”, de Stephen Michael King, tradução de Gilda de Aquino, editora Brinque-Book,  fala do relacionamento entre um pai e seu filho. Um homem simples, calado, de poucas palavras ou, melhor dizendo, carente delas. Cada um vivendo em seu próprio mundo: inventado ou imaginário.

    O filho tinha um enorme amor pelo seu pai, mas este vivia preso no seu mundo, cercado pelas caixas que encontrava pelo caminho, e que as transformava em castelos, aviões, barcos, enfim, tudo o que era possível criar para brincar com o menino. O homem também tinha um enorme amor pelo seu filho, mas não sabia como dizer, como demonstrar este amor.

    A história aborda  a dificuldade que algumas pessoas possuem em demonstrar e expressar seus sentimentos, sejam eles bons ou não, e a nossa busca constante de estar em contato com o outro, seja por um gesto, um olhar, um sorriso, um toque ou por palavras.

    Com seu gesto de construir brinquedos com as caixas, o homem se aproximou do seu filho e, através das suas brincadeiras, conseguiu demonstrar ao filho todo o seu amor. Também permitiu ao filho descobrir em meio às caixas o quanto sentir este amor era necessário. Mesmo diante das desconfianças e os apontamentos dos vizinhos, o homem conseguiu transformar uma relação carente de gestos afetuosos em um momento único, regado de brincadeiras e muita parceria.

    O amor desperta alegria, cumplicidade, dedicação, escuta, gratidão, paciência, permissão e respeito. Nem sempre é fácil demonstrar nossos afetos, é um exercício diário e individual. Porém, percebemos com essa história que, mesmo quando existe um amor verdadeiro, é necessário dar ao outro a liberdade, o espaço e o tempo para amadurecer esse sentimento. “O Homem que amava caixas”, com toda sua sutileza, nos provoca uma reflexão:  o amor só exige o compromisso de ser simples e verdadeiro.

    Eva Martins 
    Biblioteca Centro Cultural Venda Nova

    KING, Stephen Michael de. O Homem que amava caixas. São Paulo: Brinque-Book, 1995.
     

    Para visitar as Bibliotecas da Rede Municipal e pesquisar seu acervo, acesse informações no site: pbh.gov.br/reaberturabibliotecas 

     

  • Coluninha Literária - 2ª Edição

     

    COLUNINHA LITERÁRIA DA BPIJBH

     

    LIVROS PARA CRIANÇAS PEQUENAS: BRINCADEIRAS COM A LINGUAGEM

    2° edição / 2023

     

    APRESENTAÇÃO

    A segunda edição da Coluninha Literária da Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte (BPIJ-BH) apresenta livros de literatura infantil para crianças pequenas, presentes no acervo da Rede de Bibliotecas da Fundação Municipal de Cultura, que brincam com os sentidos, os sons e com os ritmos do texto, e também livros de imagem que ampliam o olhar infantil.

    Para o encontro entre crianças pequenas e livros é importante a disponibilidade dos adultos em fazer a mediação. Convidamos as  famílias a trazerem suas crianças às bibliotecas, onde adultos e crianças têm a oportunidade de estar em contato com literatura de qualidade, com o atendimento de bibliotecários que conhecem os livros infantis.

    Nesta edição da Coluninha Literária, apresentamos os livros “Bruxa, bruxa, venha à minha festa” e a “Coleção O que é? O que é”, que vão fazer sucesso entre os pequenos leitores. Para o perfil literário, escolhemos a escritora e tradutora de livros infantis Gilda de Aquino, que traduziu mais de 200 livros infantis, muitos dos quais ganharam o Prêmio de Melhor Tradução da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ).

     

    Patrícia Renó

    Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte

     

    RESENHA 1: BRUXA, BRUXA, VENHA À MINHA FESTA

     

    O livro “Bruxa, bruxa, venha à minha festa”, de Arden Druce, ilustrado por Pat Ludlow, publicado pela editora Brinque-Book, é a história de uma bruxa que é convidada para uma festa e quer convidar mais alguém, que quer convidar mais alguém e assim vão surgindo personagens assustadores dos contos de fadas clássicos: bruxa, gato, espantalho, coruja, árvores amedrontadoras, gnomo, dragão, pirata, tubarão, cobra, unicórnio, fantasma, babuíno, lobo, Chapeuzinho Vermelho.

    A narrativa é o convite para uma história interativa e repetitiva, cuja  leitura em voz alta, a memorização e o reconto são favorecidos. A festa vai crescendo e, à medida que os convidados vão aparecendo, a história brinca com os perigos e os medos, enquanto tentamos adivinhar o motivo da festa. 

    O formato grande do livro realça as detalhadas ilustrações em folha dupla de Pat Ludlow, que reforçam a ameaça dos personagens que vão surgindo a cada virada de página. Teias de aranha, verrugas, insetos, dentes, cada detalhe dos personagens são vistos enquanto a história se desenrola. A inesperada relação entre texto e imagem tem uma dimensão suplementar na história e existe no livro um desafio na leitura das imagens. Em cada ilustração surge uma pista do próximo personagem a ser convidado. Na capa a bruxa está acompanhada do gato, na página do gato aparece o rato que acompanha o espantalho e vemos no céu corujas voando e assim a história brinca de adivinhar quem é o próximo convidado, criando uma narrativa visual.

    Venha também fazer parte desta festa na BPIJBH e pegue emprestado este surpreendente livro, que é um clássico mundial.

     

    Patrícia Renó

    Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte




     

     




     

    RESENHA 2: COLEÇÃO O QUE É? O QUE É? 

     

    A coleção “O que é? O que é?”, criada e ilustrada por Guido Van Genechten, reconhecido e premiado artista gráfico belga, publicada no Brasil pela Gaudí Editorial, traz quatro livros: “É um gato?” “É uma rã?” “É um caracol?” “É um ratinho?”. Os livros não possuem texto, a não ser na capa, onde se apresentam: uma pergunta para aguçar a curiosidade do leitor, o nome do autor e o nome da editora.

    A coleção é feita em papel cartão mais resistente, possibilitando o manuseio dos pequenos e são do tipo livro dobrável, o livro literalmente se desdobra revelando cada página, perfeito para brincar e estimular a imaginação. A história é contada pelas imagens, nas quais personagens, surgindo a cada desdobrar de página, são animais. Eles aparecem num fundo liso e colorido, valorizando a sua imagem, sem tirar a atenção da criança para a brincadeira proposta. A brincadeira é ver a transformação de um personagem em outro.

    “O que é? O que é?” É uma coleção muito legal para curtir com os bem pequenininhos, com as crianças mais velhas e com adultos curiosos, aguça a curiosidade, a imaginação. Dizer qual é o animal que aparece na ilustração, dar um nome a ele, inventar uma história para cada figura é sempre muito divertido. É um jogo para todas as famílias!

     

    Flávia Paixão 

    Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte



     

     



     

    PERFIL LITERÁRIO - GILDA DE AQUINO

     

    Gilda de Aquino, tradutora brasileira, é responsável pela tradução de mais de 200 títulos pela Editora Brinque-Book, fundada em 1990 por ela, em parceria com Suzana Sanson. Nascida no Rio de Janeiro, formou-se em Letras Anglo-Germânicas pela PUC/Rio e fez mestrado em linguística na Universidade de Washington. É ganhadora de diversos prêmios e selos de tradução “altamente recomendável” pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.

     Para Gilda de Aquino a tradução literal não existe, é preciso ler o texto com cuidado e atenção, procurar conhecer um pouco sobre o autor e o imaginário deste, para compreender o que o levou a escrever determinado texto (BLOG DAS LETRINHAS, 2021).

    Clássicos como “Bruxa, bruxa, venha à minha festa”, “Carona na vassoura” e “O Grúfalo” fazem parte das inúmeras obras traduzidas por ela. Gilda de Aquino, além de amplamente conhecida pela tradução de inúmeras obras infantis, é autora do livro “Por que o céu chora”, publicado também pela editora Brinque-Book e ilustrado por Odilon Moraes.

    Grande conhecedora do universo infantil e do estilo de escrita de diversos autores estrangeiros, Gilda de Aquino é responsável por apresentar, com maestria, ao público infantil brasileiro uma ampla gama de obras da literatura infantil em língua inglesa.

     

    Charles Marques 

    BPIJBH

     

    REFERÊNCIAS 

     

    Como é ser tradutor de literatura infantil. BLOG DAS LETRINHAS, 2021. Disponível em:https://www.blogdaletrinhas.com.br/conteudos/visualizar/Como-é-ser-tradutor-de-literatura-infantil Acesso em: 16 nov 2023 

     

    Gilda de Aquino. QUINDIM, 2018. Disponível em: https://quindim.com.br/selecoes/tradutores/Gilda-de-Aquino Acesso em: 16 nov 2023.

     

  • COLUNINHA LITERÁRIA - 6ª EDIÇÃO

    Desafios de abordagem temática em livros para crianças

    A literatura para pequenos leitores é algo relativamente novo no campo da produção literária. Se considerarmos toda a trajetória da literatura, podemos até dizer que é uma tendência novíssima. Afinal, em milênios de produção literária, é possível perceber uma certa linhagem que remonta às fábulas gregas, originadas na tradição oral, com certo viés moralizante, numa espécie de “função pedagógica”. Porém, esse aspecto não estava voltado necessariamente para as crianças e sim para públicos de diversas faixas etárias.
    A modernidade trouxe também um olhar cuidadoso para as infâncias, o qual tem sido cada vez mais qualificado. É ponto pacífico que a experiência da criança deve ser protegida e resguardada. Porém, ela não deve ser alijada da experiência estética, propiciada por diversas linguagens artísticas, dentre elas a literatura.
    Resgatando a ideia da “função pedagógica”, é possível perceber que os primeiros textos especialmente voltados para as crianças carregavam um aspecto fortemente utilitarista. Narrativas que citavam “bons” ou “maus” exemplos, com suas devidas recompensas e punições. Havia também textos que apresentavam um tom ingênuo, como se esta fosse uma característica inerente às infâncias. Textos sobre virtudes a serem seguidas. Um clássico da literatura para crianças é justamente “Juca e Chico”, de Wilhelm Busch, traduzido para o Brasil por Olavo Bilac. Nesta narrativa, os dois meninos cometem atos terríveis, sendo também terrivelmente castigados. Assim, é possível perceber que, tendo em vista o objetivo “pedagógico”, a criança não é poupada da violência.
    Como não foi poupada a criança leitora dos Grimm, com seus “Contos Infantis e Domésticos”, onde é possível testemunhar atos cruéis e violentos. Sendo assim, o argumento de que os “clássicos” seriam as melhores opções para as crianças acaba por ser falacioso, caso tal argumento venha junto do desejo de que elas sejam preservadas de qualquer cena violenta ou perturbadora.
    Fato é que com a evolução das diversas pesquisas sobre o desenvolvimento das crianças, vários discursos foram surgindo, todos com seus objetivos e vieses. Na produção e distribuição da literatura infantil, muitas vezes o livro acaba por se tornar um objeto utilitário, uma ferramenta, bem como um produto sujeito a uma lógica de mercado. 
    Não podemos negar os movimentos moralizantes que buscam uma certa “higienização” da literatura para crianças, justamente com esse argumento de preservá-las. Com isso, são produzidas obras insossas, rasas, sem apuro estético ou profundidade temática. Contudo, numa contra-corrente, muitas obras para crianças apresentam sensibilidade, ousadia e talento para abordar temas considerados difíceis ou até mesmo impossíveis de ser abordados em textos para crianças. Autoras e autores que lançam do humor, da inventividade, da sensibilidade e da delicadeza para produzir obras profundas, transformadoras e inquietantes.
    Tendo isso em mente, a Sexta Edição da Coluninha Literária - Desafios de abordagem temática em livros para crianças - apresenta obras questionadoras e potentes, com as resenhas de Renata Tunes, com "O menino perfeito", de Bernat Cormand, e Flávia Paixão, com "Leila", de Tino Freitas. O perfil literário da disruptiva Babette Cole é assinado por Daniela Figueiredo. 
    É importante lembrar que as melhores histórias são para todas as idades. Portanto, a literatura para crianças hoje tem apresentado uma diversidade de trabalhos que impactam amplamente diversas gerações, mostrando com primor o quão fundamental é refletir, pensar e, antes de tudo, sentir.

    Samuel Medina
    Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte

     

    Entre o silêncio e a beleza: “O Menino Perfeito”, de Bernat Cormand

    Há livros que nos contam uma história. E há outros que nos contam a nós mesmos.  “O Menino Perfeito”, de Bernat Cormand, pertence a esta segunda e delicada categoria: a  dos livros-espelho, que convidam o leitor a entrar em si e perguntar: quem sou eu quando  ninguém está olhando? 
    Daniel é o protagonista. Um menino como tantos — ou assim parece. Durante o dia, ele cumpre os rituais da obediência: é educado, tira boas notas, responde com doçura aos comandos do mundo. É, nas palavras do título, o menino “perfeito”. Mas à noite,  quando o silêncio da casa permite outras existências, Daniel guarda um segredo que não ousa compartilhar. 
    A narrativa não é sobre a revelação de um segredo apenas. É sobre o tempo  necessário para que um menino deseje ser inteiro — mesmo que isso signifique abandonar  a perfeição esperada. 
    “O Menino Perfeito” não é um livro de fácil digestão. Ele pede pausa. Pede escuta e mediação afetiva. Pede que o mediador se desarme de certezas e entre na narrativa disposto a mais perguntas do que respostas. 
    Cormand não nos oferece respostas fáceis. Ele nos oferece algo mais raro: a  chance de sentir com profundidade. De pensar com o coração. E de lembrar que, na  formação de nossas infâncias, a ternura não é um adorno. É resistência. Porque num mundo que ainda oprime a diferença, um livro como “O Menino Perfeito” é uma flor nascida no asfalto. Um lembrete de que a literatura pode — e deve — ser um espaço de acolhimento, de reinvenção e de liberdade. 
    E se nossos pequenos leitores, ao se depararem com Daniel, perceberem que também podem ser quem são, então teremos feito da leitura não apenas um ato estético, mas um gesto de amor. E de futuro.

    Renata Tunes
    Leitora da BPIJ-BH

     

    “Leila”, de Tino Freitas e Thaís Beltrame

    Leila é uma baleia jubarte filhote: grande, livre e feliz. Tem longas madeixas e adora nadar ouvindo música. Um dia, seu passeio é interrompido pela presença do polvo Barão, seu vizinho, que invade o seu território e toca seu corpo sem permissão. Ela não quer a companhia dele, ela não quer nadar com ele. Mas ele a acompanha assim mesmo. Amedrontada, ela se cala diante dele e de suas atitudes abusivas. Até que um dia, apoiada por amigos, pelo poder do cuidado, do acolhimento, ela encontra a sua voz para se libertar do constrangimento e do medo.
    O livro “Leila”, de Tino Freitas, tem como temática o abuso sexual infantil e aborda o tema de forma delicada e extremamente corajosa. Com poesia, beleza e encantamento, “Leila” dá voz a crianças e adultos que em algum momento sentiram-se abusados, silenciados ou violentados. A ilustração de Thais Beltrame, desenhadas com traços finos e finalizadas em nanquim aguado e aquarela, além de plasticamente linda, conta a história com extrema delicadeza, ora densa, difícil, dolorida; ora leve e libertária, construindo junto com o texto uma narrativa surpreendente. 
    A ambientação da narrativa, localizada no fundo do mar, apresenta um viés simbólico, sendo o Barão um ser das profundezas - um polvo - capaz de evocar o asco provocado por abusos, muitos deles velados. Assim, a baleia Leila também assume um lugar simbólico, pois é toda corpo. Há também o contraste na fragilidade da protagonista, vítima de um insidioso e dissimulado abusador.
    Com “Leila”, Tino Freitas e Thais Beltrame criam uma obra questionadora, incômoda, mas também profundamente sensível. É nessa sensibilidade que reside sua força. Uma potência esmagadora, que marca, de forma contundente, como é importante a consciência de que o corpo é território íntimo e que nenhum abuso será tolerado. “Leila” está disponível para empréstimo no acervo da BPIJ-BH.


    PERFIL LITERÁRIO: Babette Cole

    Babette Cole foi uma escritora britânica, falecida em 2017. Recebeu vários prêmios pela sua produção literária para crianças, iniciada em 1970. Com diversos livros publicados, entre eles e, talvez, o mais famoso no Brasil “Mamãe botou um ovo” (1994), suas narrativas trazem temas que, na atualidade, são nomeados, na literatura para crianças, como sensíveis, polêmicos ou fraturantes. Neste escopo estão incluídos assuntos como morte, sexualidade, gênero, separação, trabalho infantil, deslocamentos forçados, entre tantos outros. Ou seja, conteúdos que geram até hoje controvérsias no sentido de serem ou não apropriados para os pequenos leitores. Mas, a escritora e ilustradora tem em suas obras uma dose de humor na medida certa, apresentando personagens inusitados como o Sr. e a Sra. Hormônio, presentes em “Cabelinhos nuns lugares engraçados” (1999).
    A escolha de Babette Cole para o perfil desta edição aponta para o pioneirismo dos temas abordados em suas obras, quando a produção literária para crianças não era tão diversa. E, nesta direção, lembramos de “Dois de cada” (1998) e “Caindo morto” (1996). Além da narrativa irreverente, a autora também ilustrava seus livros e, em várias edições, o projeto gráfico foi bem cuidado pelas editoras Ática e Cia das Letrinhas.
    Então, se você, como nós, acompanha a evolução da produção literária para crianças e, ainda, não conhece a obra de Babette Cole, fica o convite para descobri-la. Os livros da autora estão disponíveis para empréstimo na BPIJ-BH!

    Daniela Figueiredo
    Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte