Noturno Museus - 2022 - Museus

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  • Cenografia em um ambiente interno com figuras de animais da fauna brasileira (como raposa e gambá) e folhagens coloridas espalhadas pelo chão de madeira.
    Cenografia em um ambiente interno com figuras de animais da fauna brasileira (como raposa e gambá) e folhagens coloridas espalhadas pelo chão de madeira.
    Exposição: Residência do Governador a um Parque para Todos

    Em cartaz no primeiro andar do Palácio das Mangabeiras, a exposição “Palácio das Mangabeiras: de Residência do Governador a um Parque para Todos” integra a programação permanente do Parque do Palácio e propõe uma leitura aprofundada sobre a trajetória do edifício e suas transformações ao longo do tempo. A mostra convida o público a conhecer a história de um espaço que, por décadas, esteve associado ao poder e ao uso restrito e que hoje se consolida como patrimônio cultural aberto à cidade.

    Com concepção e curadoria do arquiteto e cenógrafo Alexandre Rousset, em parceria com o Departamento de História da PUC Minas, a exposição articula arquitetura, política, urbanismo e paisagem para contextualizar o Palácio das Mangabeiras dentro da história de Belo Horizonte e do Estado de Minas Gerais. O percurso expositivo privilegia uma narrativa clara e acessível, pensada para dialogar tanto com visitantes de fora da cidade quanto com o público local, sem abrir mão do rigor histórico. 

    Projetado como residência oficial dos chefes do Executivo mineiro, o Palácio foi inaugurado em 1955 e permaneceu, por muitos anos, como um espaço de acesso restrito. A exposição revisita esse período por meio de documentos, imagens e textos curatoriais que ajudam a compreender o contexto político, social e arquitetônico de sua construção, além de refletir sobre os diferentes significados simbólicos que o edifício assumiu ao longo das décadas. 

    Ao longo do percurso, o visitante é convidado a refletir sobre as mudanças na relação entre poder, cidade e espaço público, bem como sobre os processos que permitiram a transformação do Palácio em um equipamento cultural, turístico e de lazer. A narrativa evita a simples cronologia de fatos e aposta na construção de sentidos, conectando passado e presente de forma crítica e contextualizada. 

    A cenografia valoriza o próprio edifício como parte essencial da exposição. A arquitetura modernista, a implantação aos pés da Serra do Curral e a inserção do Palácio em uma área de proteção ambiental são tratados como elementos fundamentais para a compreensão de sua importância histórica e cultural. O Palácio deixa de ser apenas o local da exposição para se tornar também seu principal objeto. 

    Ao integrar definitivamente o Palácio das Mangabeiras à experiência do Parque do Palácio, a mostra reafirma o compromisso do espaço com a preservação da memória, a educação patrimonial e o acesso democrático à cultura. Trata-se de um convite à reflexão sobre o papel dos equipamentos públicos na construção da cidade e sobre os sentidos contemporâneos de pertencimento e uso coletivo.

  •  Exposição: ‘Respiração"
    Exposição: ‘Respiração"
    Exposição: ‘Respiração"

    A Pró-Reitoria de Cultura da UFMG, por meio do Centro Cultural UFMG, convida para a abertura da exposição ‘Respiração’, da escultora, gravadora, desenhista e professora Shirley Paes Leme, na quinta-feira, dia 20 de julho de 2023, às 19 horas.

    A mostra tem curadoria de Paula Borghi e integra a programação do 55º Festival de Inverno UFMG. As obras poderão ser vistas até 13 de agosto de 2023. A entrada é gratuita e tem classificação livre. ‘Respiração’ flerta com a herança construtivista e seus desdobramentos.

    Não pretende evocar o programa construtivista brasileiro, não há desejo de propor significações para sua continuidade, mas ampliar os meios de acesso à obra pela forma, com outros modos de ordenar o espaço visual e a geometria sensibilizada pela vida. “A ideia do trabalho é a noção de alerta e a percepção aguçada do tempo, rememorando pistas, rastros e restos da vida cotidiana. Ao utilizar filtros de ar-condicionado de carros evoca-se a relação estreita com o ar da cidade, o ar que respiramos.

    Toda a energia vital está na respiração. O controle de tudo, no ser vivo, está na respiração”, reflete Shirley. Assim como a vida, repleta de acasos e caminhos não retilíneos, as obras espelham as possibilidades combinatórias e aleatórias da geometria, sem perder o contato com o cotidiano. Formas que geram fluxo e contenção de fluxo, dispostas em arranjos simétricos, trazem consigo a lembrança do aparelho de ar-condicionado do teto do hospital onde a artista costuma frequentar.

    Paes Leme afirma que a arte é um meio de assimilação do mundo e através dela se conquista a realidade subjetiva de transformação. Seu trabalho, nos últimos 40 anos, dialoga com a memória, a literatura e a experimentação, acentuando o conceito de tempo, de lugar, de espaço vernacular e urbano, trazendo à tona os resíduos, os rastros e os restos do cotidiano sensível. Segundo Paula Borghi, curadora da mostra, “picumã, uma teia de aranha negra tomada pela ação da fuligem, é a referência germe da produção da artista, que desde os tempos da graduação trabalha exaustivamente com o ar e o fogo. De forma direta ou indireta é possível notar, em sua trajetória, a presença ativa destes dois elementos.

    Indo além, se o domínio do fogo marca um divisor de águas na história da humanidade, com a obra de Shirley Paes Leme não é diferente”. “São trabalhos que alertam sobre os perigos do Antropoceno; período em que o impacto humano sobre a Terra é tão intenso que mudou seu tempo geológico, de modo que ela não consegue mais se regenerar. ‘Respiração’ não deixa dúvidas de que, se a humanidade não rever seus hábitos agora, em pouco tempo não será mais possível respirar”, conclui a curadora.

  • Exposição "Retratistas do Morro"

    O projeto "Retratistas do Morro" reúne imagens pertencentes à história recente da fotografia brasileira, produzidas pelos fotógrafos João Mendes e Afonso Pimenta, que trabalham, desde o final da década de 1960, registrando o cotidiano dos moradores da Comunidade do Aglomerado da Serra, segunda maior favela do país, localizada na cidade de Belo Horizonte.

    A comunidade em que moram mais de 70.000 pessoas é resultado da expansão populacional e territorial de vilas menores que foram surgindo na encosta da Serra do Curral, a partir de 1914, ainda como solução de moradia para muitas famílias que vieram do interior colaborar na construção da capital mineira, ou procurar emprego, e não tinham onde morar.

    As fotografias de João e Afonso nos revelam outras versões da história das metrópoles e das populações de favela no Brasil, contadas a partir das experiências e visões de mundo de seus próprios moradores. Representam suas trajetórias de vida, lutas e conquistas.

    Em meio a gestos fotográficos quase despretensiosos, voltados para o registro de uma realidade familiar e seus movimentos cotidianos, acompanhando intimamente o acontecimento de casamentos, nascimentos, batizados, jogos de futebol, velórios, formaturas e bailes, eles construíram uma iconografia inédita, das poucas ainda preservadas, em que é possível acessar mudanças nos cenários social, político, econômico e cultural ocorridas nas favelas do Brasil ao longo dos últimos quase 50 anos. 

    A obra desses retratistas tradicionais está integralmente dedicada ao que é importante ao Outro. Apesar das características formais, não é uma obra documental, mas biográfica. Trabalham onde vivem. Estão entre seus pares, amigos e parentes. 

    Diante da desigualdade simbólica – ou de representação pela visualidade – tão acentuada quanto desigualdade a social, como a que conhecemos em nosso país, encontraram espaço para registrar as memórias e vivências afetivas de toda uma população que teve sua imagem invisibilizada por séculos. Apresentam em suas fotografias uma realidade em que todos e todas temos o igual direito de existir e manifestar nossas subjetividades. 

    Guilherme Cunha

    Idealizador e Coordenador do Projeto Retratistas do Morro

     

    Sobre o Projeto

    O projeto “Retratistas do Morro” tem por objetivo contribuir para a construção de uma narrativa histórica das imagens brasileiras, conectadas do ponto de vista de fotógrafos tradicionais que atuaram em vilas, favelas e comunidades urbanas do país, a partir da metade do século XX. Atualmente, ele é dedicado à preservação, catalogação, digitalização, restauração das fotografias e resgate das histórias de vida dos mestres retratistas João Mendes e Afonso Pimenta que, desde o final da década de 1960, documentam o cotidiano dos moradores do Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte.

    O projeto é idealizado e coordenado por Guilherme Cunha, artista visual, pesquisador e empreendedor cultural formado em Artes Plásticas pela Escola Guignard (UEMG) e Pittsate University (KS/EUA). Suas produções e pesquisas transitam por diferentes meios, atuando na interseção entre as artes visuais com outras formas de conhecimento.

    Biografia dos Fotógrafos

    Afonso Pimenta

    São Pedro do Suaçuí, Minas Gerais – 1954

    Em 1970, o jovem Afonso Adriano saiu do interior de São Pedro de Suaçuí para ajudar sua madrinha com as despesas da casa na favela do Cafezal, uma das vilas que formam a Comunidade do Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte. 

    Por falta de emprego, passou uma temporada catando e vendendo esterco até ser contratado como gari pela prefeitura. A fotografia chegou a sua vida por necessidade. Como assistente do fotógrafo João Mendes, enquanto lavava as imagens já reveladas, ia aprendendo seu futuro ofício.  

    Seu percurso como fotógrafo profissional começa a se consolidar quando passou a registrar os bailes de soul da Comunidade da Serra, a convite de Misael Avelino dos Santos, um dos fundadores da Rádio Favela e organizador dos bailes. 

    Ao longo da década de 80, acompanhou os movimentos culturais da música e da dança que traziam a afirmação e força da identidade cultural negra em BH. Fotografou os concursos de dublagem, os salões, os dançarinos e grupos de amigos, além de ter vivido muito de perto os bastidores do movimento "Black" que surgia na periferia.

    Esse foi para ele o momento em que mais trabalhou com fotografia, uma vez que o registro dos bailes era uma forma divulgar seu nome entre os moradores da comunidade. Começou então a trabalhar, como ele mesmo define, “no corpo a corpo” – indo ao encontro das pessoas e caminhando pelo morro. Há quase 40 anos registra o cotidiano dos moradores e os eventos sociais que ali acontecem, como casamentos, batizados, aniversários, festas de quinze anos, velórios etc. 

     

    João Mendes

    Iapú, Minas Gerais – 1951

    Nascido em Iapú, município de Inhapim, comarca de Caratinga, Minas Gerais, João Mendes trabalhou na roça com os pais desde os 8 anos de idade. Em 1963, mudou-se para Ipatinga com a família em busca de uma nova vida. Depois de passar por vários empregos e vender picolés de porta em porta, aos 15 anos, João inicia sua trajetória na fotografia. Ainda nessa época foi contratado pelo delegado de polícia da cidade para ser o fotógrafo oficial da perícia. Ente os deveres em casa e na escola, retratava cenas de crimes e casos forenses.

    No dia 02 de agosto de 1973, João Mendes se estabelece como um dos primeiros fotógrafos profissionais no bairro Serra, em Belo Horizonte, onde vem trabalhando há 45 anos. Apesar disso, suas primeiras imagens da região datam de 1968. Desde então, sua loja, Foto Mendes, fica no mesmo local e até hoje é uma referência; por lá já foram fotografadas quatro gerações de moradores do bairro.

    As fotografias em preto e branco apresentadas na exposição foram feitas no período entre 1975 e 1979, com uma câmera Yashica Mat, de médio formato, retratando moradores da Comunidade do Aglomerado da Serra. 

    Estas imagens são retratos 3x4 para documentos, principalmente para carteira de identidade, e fotos postais enviadas por aqueles que haviam migrado para a capital mineira e há muito tempo não podiam visitar sua cidade natal a parentes distantes que permaneciam no interior. 

    No acervo de João Mendes também pode ser encontrada uma significativa coleção de fotografias de "becas" ou formaturas, em que as crianças da Comunidade da Serra, estudantes da rede pública de ensino, foram fotografadas celebrando a passagem de diferentes períodos escolares. 

     

    Ficha Técnica

    Idealização e Coordenação - Guilherme Cunha

    Produção Local - Kelly Cristina da Silva

    Consultoria Técnica - Artmosphere

    Digitalização - André Oliveira e Douglas Mendonça

    Restauração e Tratamento de Imagens - Flávia Peluzzo, Guilherme Cunha, Ricardo Baroni e Geraldo Peixoto

    Conservação de Acervo Fotográfico/Bolsistas - Lara Prado Mariana Oliveira, Tiago Borges e André Oliveira

    Entrevistas - Ana Paula Orlandi, Carina Santos e Kelly Cristina da Silva

    Administrativo - Sinergia Projetos Culturais