Quando a atriz e professora Ana Hadad convidou a atriz, dramaturga e diretora Eduarda Fernandes para conduzir, junto ao preparador corporal Rafael Batista e a preparadora vocal Michele Bernardino, o processo de criação de uma performance solo, partiram de um interesse comum em reavivar a noção de presença — material e coletiva — distorcida pela condição de isolamento social vivenciada nos últimos anos.
Com estreia na próxima sexta-feira, dia 1º de abril, no espaço Casa da Voz, “Como se fosse a casa” é um solo que acontece na casa da avó e do avô maternos de Ana. O espaço convoca uma dramaturgia autobiográfica, ao mesmo tempo em que a sobrepõe aos interesses coletivos da platéia. Em cena, as manifestações cênicas que têm como disparador o extenso campo autobiográfico se valem no exercício de coletivizar questões pessoais e torná-las risíveis à subjetividade do outro. A socialização da experiência da intimidade no território compartilhado do teatro ergue-se, então, como uma superfície de espelhos, arbitrária à identificação de quem assiste; são parâmetros sentimentais que, de tão elementares, se tornam universais.
Como dramaturga, ou “montadora dramatúrgica”, Eduarda Fernandes foi responsável por dar forma a essa pretensão autobiográfica e confundi-la com temas extra pessoais. Ao contrário do que comumente é observado em processos do gênero, onde o ator-autor é responsável por selecionar, organizar e projetar o que será colocado em cena, partimos de um olhar exterior à intimidade: os depoimentos e arquivos compartilhados associam-se a outros materiais sob o mesmo recorte temático, recriando significados, deslocando sentidos ou mantendo-os arraigados à origem. Um trabalho de composição que, por si só, configura um processo de ficcionalização.
Depois de estruturado o texto, Ana foi convidada a olhar novamente para si, traduzida pelas palavras de outrem: estranhas pela forma, mas substancialmente familiares pelo conteúdo. Toda apresentação, atriz e espectadores compartilham a responsabilidade de receber uma pessoa convidada; são co-anfitriãs de um evento ainda sem nome, mas com endereço, dia e horário. Em conjunto, devem trazer à luz do território cênico a singularidade desse/a que chega e desestabiliza os acordos estabelecidos até então.
O passado biográfico, como tempo referencial esterilizado pela imutabilidade, serve para localizar, espacial e afetivamente, o território no qual os encontros acontecerão.
A encenação, por sua vez, não é representativa, não busca reproduzir esse ambiente, deixando esta uma tarefa para a potência imagética das palavras e para a habilidade imaginativa do espectador. Assim, procuramos criar um espaço-ritual, incorpóreo e invisível, que evidenciasse as possibilidades de convívio entre atriz, espectador e convidado. A teatralidade, no entanto, está presente nas formalidades gestuais, nos códigos visuais, nas paisagens sonoras e na especificidade das relações em cena.
Neste espaço memorado, a atriz reflete, entre outras coisas, sobre o nascimento, a vida e a morte: ciclo inerente à experiência de vida humana (e não humana), e no qual nos apoiamos para proporcionar encontros de toda sorte. Para explorar esse tema universal e inesgotável, a dramaturgia sobrepõe elementos antagônicos como forma de, pela oposição, evidenciar suas funções complementares.
São eles: chegada e despedida; presença e ausência; morte e vida; pessoalidade e coletividade; memória e acontecimento. Na equipe de criação, está também Régelles Queiroz, que faz a direção de luz. “Como se fosse a casa” faz temporada de sexta a domingo, de 01/04 a 10/04 e de 22/04 a 01/05, na Casa da Voz. Sextas e sábados às 20h, domingo às 19h.
A Casa da Voz é um novo centro cultural em Belo Horizonte, localizado próximo à região da Savassi.