COLUNINHA LITERÁRIA - 7ª EDIÇÃO
COLUNINHA LITERÁRIA - 7ª EDIÇÃO - COMEMORATIVA DOS 35 ANOS DA BPIJ-BH - 1ª PARTE
APRESENTAÇÃO:
É com grande alegria que este ano celebramos os 35 anos da Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte – BPIJ-BH e, para festejar este marco significativo, a primeira parte da 7ª edição da Coluninha Literária conta um pouco da história da formação de suas Coleções Especiais, setor hoje cuidadosamente organizado pela bibliotecária Patrícia Renó.
Na sequência, Samuel Medina, técnico em Literatura, apresenta duas personalidades significativas na literatura infantil que compõem as Coleções Especiais da BPIJ-BH, com destaque a suas obras mais relevantes: a série de livros “Cachorrinho Samba”, de Maria José Dupré, e “Atíria, a Borboleta”, de Lúcia Maria de Almeida, título mais conhecido na atualidade como “O Caso da Borboleta Atíria”.
Para além do mergulho em suas narrativas, as obras contam a história da literatura infantil, dizem de temas relevantes em determinadas épocas, veiculam algumas vozes em detrimento de outras, mostram ou apagam certos tipos de personagens, entre vários outros aspectos. As Coleções Especiais da BPIJ-BH buscam preservar esta história. Em toda seleção há relações de poder, essa guarda não está a salvo disto e, por isso, embora tenha sua importância patrimonial, está longe de conter a totalidade. O mais importante é que tenha o movimento de reflexão constante sobre estas escolhas e que, a cada dia, possa incluir nestas Coleções vozes e olhares mais diversos da Literatura Infantil.
Na segunda parte desta edição comemorativa, vamos mostrar um pouco das obras da Coleção de Referência da Infância e Juventude da Biblioteca.
Vida longa à BPIJ-BH! Que este espaço possa ressignificar, a cada dia, por meio da sua equipe e comunidade leitora, a democratização do acesso à leitura e a valorização da literatura.
As visitas à sala de Coleções Especiais podem ser agendadas pelo email da biblioteca: <bpij.fmc@pbh.gov.br>.
Daniela Figueiredo
Coordenadora da BPIJ-BH


O SETOR DE COLEÇÕES ESPECIAIS DA BPIJ-BH
Coleções especiais de bibliotecas são acervos reunidos com base em seu valor cultural e patrimonial. Estas recebem tratamento diferenciado do restante da coleção geral nas condições de armazenamento, acondicionamento, acesso e preservação.
As Coleções Especiais da Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte – BPIJ-BH – são formadas por diferentes acervos, dos quais se destacam as doações da coleção da Biblioteca Nacional de Quadrinhos e livros infantis antigos, antes propriedade de Antônio Gobbo, e de livros e periódicos infantis da coleção de Vicente Guimarães, o Vovô Felício. Dessas duas doações iniciais fazem parte periódicos infantis como “Almanaque de Vida Infantil", da década de 1950, “Almanaque de Vida Juvenil”, “Almanaque Melhoramentos” e “Almanaque do Tico-tico”.
O periódico infantil “Era uma vez…”, revista de Vovô Felício para seus netinhos, publicado entre 1940 e 1947, em Belo Horizonte, é um importante documento da leitura infantil na Era Vargas. Os 55 exemplares da BPIJ-BH estão catalogados e vão passar por processo de conservação, com apoio e orientação da equipe do Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte. Também estão presentes suplementos infantis e de quadrinhos de jornais dos anos 1970 a 1990. As revistas de quadrinhos infantis são primeiras edições dos anos 1950 aos anos 1960, incluindo a primeira edição da revista “Mônica” de 1970, do “Pato Donald” de 1950, e quadrinhos de super heróis da editora Ebal.
Nas coleções existem quadrinhos de cartunistas brasileiros populares na imprensa dos anos 1980. Quadrinhos de detetives e de terror, de personagens históricos, de faroeste e quadrinhos de super heróis da editora Ebal são outros itens interessantes na coleção de quadrinhos antigos.
A coleção possui o livro Histoire d’Albert, de 1861, doado para a BPIJ-BH pelo cartunista LOR, Luiz Oswaldo Rodrigues. Seu autor, Rodolphe Töpffer, considerado o primeiro autor de quadrinhos, fazia crítica social e política da época
As coleções de livros contam com coleções de contos infantis das décadas de 1950 e 1960 como a Coleção Tesouro da Juventude e Coleção Mundo da Criança. Os livros da coleção de Vovô Felício, principalmente do personagem João Bolinha, publicados entre as décadas de 1930 e 1980. Também livros de importantes autores e editoras da literatura infantil e juvenil e livros didáticos de literatura que contam a história da leitura e da Educação em Belo Horizonte, como os de Lúcia Machado de Almeida, Lúcia Casasanta, Alaíde Lisboa de Oliveira, Henriqueta Lisboa, entre outros.
Para o apoio de pesquisadores da área de quadrinhos, literatura e Educação, as coleções especiais reúnem três importantes coleções. A Coleção de referência de quadrinhos, formada por livros sobre teoria e crítica de histórias em quadrinhos; a Coleção completa das revistas “Releitura” e “Ler-o-lero”, publicadas pela BPIJ-BH, entre 1991 e 2008. Todos os números das revistas estão digitalizados e disponíveis no site Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte | Prefeitura de Belo Horizonte e a Coleção de Referência da Infância e Juventude, iniciada por meio de aquisição em 2016. São mais de 160 títulos nos assuntos literatura infantil e juvenil, livro e leitura para crianças, leitura na primeira infância, bibliotecas infantis, pedagogia da leitura, cultura da infância, educação infantil, psicologia infantil, entre outros.
Patrícia Ayres Renó
Bibliotecária da BPIJ-BH

DE COADJUVANTE A PROTAGONISTA
Um cachorrinho esperto deixa de ser mero coadjuvante para se tornar protagonista a ponto de emprestar seu nome para um conjunto de aventuras, sendo que, em algumas delas, ele sequer aparece. Esse é Samba, personagem criado pela escritora Maria José Dupré.
É fato que livros como “A Ilha Perdida” e “A Mina de Ouro” atravessaram décadas e continuam atraindo olhares de leitoras e leitores. Com uma abordagem realista, mas com um toque de fantástico, Maria José Dupré cria um universo híbrido. As crianças vivem situações inusitadas, mas nem um pouco sobrenaturais. Porém, sempre se veem incapazes de provar o que testemunharam. Seja o enigmático habitante da mata que nunca aparece, ou a entrada secreta de uma mina que ainda contém metais preciosos, ou até mesmo uma sociedade inteira no ventre de uma montanha.
Não há magia ou seres fantásticos. Porém, esse ar de irrealidade dá um tom ambíguo e fascinante para as narrativas de Maria José Dupré. Embora o cachorrinho Samba não figure todas as histórias, os livros que compõem a coleção levam seu nome. Os títulos da coleção que constam em nosso acervo especial são: “Aventuras de Vera”, Lúcia, Pingo e Pipoca” (1959), “A ilha perdida” (1959), “A montanha encantada” (1962), “A mina de ouro” (1961), “O cachorrinho Samba” (1959), “O cachorrinho Samba na floresta” (1962) e “O cachorrinho Samba na Bahia” (1957). Publicados originalmente pela editora Brasiliense nas décadas de 1940 e 1950, os títulos acima seriam, nos anos seguintes, parte do catálogo da livraria e editora Saraiva.
Outros títulos tendo Samba como protagonista seriam escritos e publicados pela autora. Porém, o recorte escolhido foi este da lista acima, uma vez que são os títulos que temos na nossa seção de Coleções Especiais e que compunham o corpo da obra na época.
Apenas décadas à frente, Samba seria o mascote oficial da coleção. Porém, vale destacar o fenômeno que esse cãozinho foi entre as crianças e até mesmo para a própria autora.
Samuel Medina
Técnico em Literatura da BPIJ-BH

LÚCIA MACHADO DE ALMEIDA E SUA ENCANTADORA BORBOLETA
Natural de São José da Lapa, essa mineira cedo se mudou para Belo Horizonte. Teve intensa atuação cultural, recebendo diversas honrarias e realizando congressos e palestras sobre os mais variados temas ligados à cultura e arte. Escritora e tradutora, atuou também como jornalista por várias décadas. Sua obra infantil teve início a partir da necessidade de criar histórias para os próprios filhos, uma vez que havia esgotado o repertório que tinha na memória.
Lúcia Machado de Almeida produziu uma relevante obra para a juventude. Com a trilogia “Aventuras de Xisto”, “Xisto no espaço” e “Xisto e o Pássaro Cósmico”, homenageou a literatura fantástica universal, abordando temas fundamentais, como a ética, a engenhosidade, a empatia e a paz. Com “Shparion”, a autora explorou a paranormalidade. As aventuras de sua Piabinha, porém, reunidas na obra “Estórias do Fundo do Mar”, foram o passo inicial desse percurso.
É com “Atíria, a borboleta”, que Lúcia produz uma narrativa que hoje ocupa o lugar de clássico. Posteriormente transformado em “O Caso da Borboleta Atíria”, da Série Vaga Lume, esta narrativa policial encantou crianças de gerações até hoje. Com sua protagonista, a frágil borboleta Atíria, este livro repleto de graça, humor e suspense é citado por inúmeras pessoas como a leitura que fez nascer o amor pela literatura.
Fato é que Lúcia Machado de Almeida continua viva em sua literatura, ainda que suas obras não sejam tão conhecidas na atualidade. Mais do que um registro da época, os livros de Lúcia são verdadeiros tratados de esperança, escritos em tempos certamente sombrios.
Samuel Medina
Técnico em Literatura da BPIJ-BH
