A exposição ‘Monturo e outros tantos’ propõe uma reflexão contundente sobre os modos de produção, acúmulo e exploração da natureza que caracterizam a sociedade contemporânea. O termo que dá nome à mostra refere-se a um amontoado de coisas — plantas, animais, máquinas, ferramentas e engrenagens — associadas à produção agrícola industrial e à lógica das commodities.
A partir desse conceito, a exposição questiona: por que e para que acumulamos tanto? Em vez de solucionar problemas, esse processo tem gerado crises globais como mudanças climáticas, pandemias e desigualdades extremas. Vivemos um paradoxo: nunca tivemos tecnologias tão avançadas e, ao mesmo tempo, nunca estivemos tão próximos de um total colapso ambiental e social.
Reunindo pinturas, desenhos, gravuras, objetos e instalações, as obras dialogam com o conceito de Antropoceno, termo usado para definir a era em que a ação humana se tornou uma força capaz de alterar profundamente o planeta. A exposição evidencia como o desequilíbrio entre a vida humana e os demais sistemas naturais está diretamente ligado à lógica do acúmulo e da exploração.
Entre os destaques está a série ‘Modernização conservadora’ (2023–2025), na qual paisagens aparentemente preservadas recebem gravações a laser que revelam monoculturas, gado e maquinário agrícola, apontando para as transformações violentas promovidas pela agroindústria. Já na série ‘Quando a natureza passa a ser cultura’ (2024), a sobreposição de imagens de plantas e marcas de agrotóxicos cria um embate visual entre diferentes políticas de vida e morte.
A mostra também apresenta a escultura ‘Antropoceno (BBBP)’ (2025), feita com materiais como papel de Bíblia, bosta de boi, chumbo e petróleo, além de obras como ‘Futuro’ (2024), uma gravura criada a partir da escrita invertida e espelhada da palavra ‘futuro’ por crianças não alfabetizadas, e a instalação ‘Mesh (superfície e imagem)’ (2025), que explora a relação entre o real e o virtual por meio de reflexos e luz, em alusão às dinâmicas de acumulação, exploração e expropriação realizadas na internet.
Por fim, a obra ‘Monturo’, uma instalação que convida o público a refletir sobre as relações de poder, tecnologia e natureza, propondo um olhar crítico sobre os caminhos que estamos construindo enquanto sociedade.