Exposição: Y

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Exposição Y

Kenny Mendes | Curadoria Juliana Gontijo

Abertura 01.09.2023 de 19h às 22h

Visitação até 02.09 a 08.10.2023

Terça a Sexta de 11h às 16h

Sábado de 09h às 17h

“Exu matou um pássaro ontem, com uma pedra que só jogou hoje”.

O convite para a realização dessa exposição foi, na verdade, um convite à amizade. Agradeço ao Kenny Mendes por aceitar abrirmos esse caminho juntos e por agora eu poder te contar a história desse amigo que conheci há algum tempo.

Verdade é uma palavra que começa com V, mas se fizermos um tracinho embaixo da letra, vai começar com Y, e é assim, como no caso da verdade, que quero começar a contar a nossa história.

Kenny Mendes é um bicho-gente que vive entre dois mundos, nascido em Capivari dos Eleutérios, é um artista autodidata que aprendeu desde criança a se virar pelos matos desse mundo.

Com sua comunidade aprendeu a construir a furkylha, um pedaço de galho em forma de ípsilon que com uma borracha presa a duas pontas de onde se lança uma pedra se transforma em um ystilingue. Esse instrumento é capaz de garantir diversão e comida ao mesmo tempo.

A furkylha pode ser encontrada principalmente em dois lugares da natureza: em bifurcações de galhos de árvores/ arbustos e no osso do peito de pássaros, que é também chamado de jogo.

Quando criança, Kenny e os seus amigos saíam pelo mato caçando passarinhos para assar em pequenas malocas.

Essa era a diversão infantil que o ensinou muito sobre as relações e sobre a vida. Sempre acompanhado da furkylha esse menino cresceu e, em suas andanças pelo mundo em busca de si mesmo, Kenny encontrou-se e desencontrou-se ao mesmo tempo. Assim, achado e perdido, ele criou seu lugar entre dois mundos – a mata e a cidade.

Quando se usa um estilingue para matar um pássaro, o mesmo símbolo que está na mão do caçador está também no peito da caça e essa consciência é o que diferencia um verdadeiro odé de um caçador.

Com a consciência de um odé esse bicho-gente, que às vezes é mais bicho e às vezes é mais gente, passou a entender que não era preciso matar para comer e se divertir e seguiu andando pelos matos do mundo encontrando outros Y no caminho.

Quando se anda por uma estrada reta e de repente ela se abre e torna-se duas, costumamos chamar de bifurcação, ou encruzilhada e dessas ele encontra muitas.

Caminhando Kenny encontra bichos que se escondem entre pedaços de pau, em cima de árvores e jogados ao chão em restos de poda, com sua destreza manual torna esses seres visíveis a todos e nós, com um olhar atento a seu trabalho podemos perceber a vibrante vida que mora no invisível cotidiano.

Li, há algum tempo, que todo lugar um dia foi sonhado por alguém, que lugares são sonhares e quero dizer aqui que essa exposição é um lugar, um lugar entre dois mundos que se constrói como um terceiro mundo possível, um mundo que vem a nós para abrir nossos olhos e nossos caminhos.

Essa exposição nos convida a habitar a encruzilhada e nos diz o que quem mora nela já sabe há muito tempo: que tudo pode ser nada e nada pode ser tudo, que o fim é começo e que o erro pode ser acerto.

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