A premiada escritora e jornalista Daniela Arbex e o sociólogo e professor Ricardo Abramovay, autor de importantes pesquisas no campo do clima, do meio ambiente e da economia, participam nesta quinta-feira (1º de agosto), na sede da ONG Contato, em Belo Horizonte, de um debate sobre as consequências de uma das maiores tragédias socioambientais ocorridas no país, após o rompimento de barragem da Vale em 25 de janeiro de 2019, na cidade mineira de Brumadinho.
Cinco anos depois da perda de 272 vidas, além dos inúmeros danos causados ao ecossistema, a região vive um processo de reconstrução, especialmente em relação à autoestima dos moradores. Como evitar que novas tragédias aconteçam? Como aliar desenvolvimento econômico com práticas sustentáveis? São temas que percorrerão a palestra de Daniela e Abramovay, que faz parte do seminário “Cultura e Meio Ambiente”, que irá de quinta a sábado, na Contato.
Jornalista experiente e reconhecida por reportagens investigativas que se desdobraram em livros premiados, Daniela Arbex é autora de "Arrastados: Os bastidores do rompimento da barragem de Brumadinho, o maior desastre humanitário do Brasil" (Intrínseca), que reconstituir em detalhes as primeiras 96 horas após o colapso da barragem desativada da Mina do Córrego do Feijão, explorada pela mineradora Vale. "Vou falar sobre a construção desse livro, sobre com o processo de levantamento de informações e as descobertas ao longo da apuração permitiram que a gente reconstituísse as 96 horas pós-rompimento quase em tempo real. Esse trabalho nos permite discutir questões sobre a permanência do luto, da impunidade e de uma cultura que faz com que essa impunidade alimente a próxima tragédia", assinala a jornalista e escritora mineira.
Professor titular do Departamento de Economia da FEA e do Instituto de Relações Internacionais da USP, Ricardo Abramovay partirá, em sua fala, daquilo que os especialistas vêm chamando de "pegada material do crescimento econômico". Ele observa que o consumo anual per capita dos quatro materiais básicos (biomassa, minerais metálicos, minerais não-metálicos e combustíveis fósseis) que compõem a vida na sociedade é de 13 toneladas.
"Quando você puxa o fio dessa informação, vem coisas muito interessantes. Um deles é que os países mais pobres usam quatro toneladas de materiais por ano, por pessoa. Os mais ricos, 27 toneladas. A desigualdade se exprime na maneira como se usa esses materiais. E o que as Nações Unidas vem recomendando, a partir dessa análise, é para que o sistema econômico seja regido pela ética da suficiência e não, fundamentalmente, da eficiência", assinala.
Abramovay salienta que a eficiência no uso de materiais faz com que se perca de vista a necessidade da modificação dos padrões de vida, "de forma que a economia possa caber dentro daquilo que a Natureza ainda é capaz de nos oferecer". Por esse prisma, já não basta mais trocar um automóvel com motor a explosão interna por um carro elétrico. "A solução é transporte coletivo, com cidades compactas e populações que não precisem se deslocar muito para cumprir suas obrigações", sugere.