O espetáculo "Coreografias do Improviso" chega com uma proposta que já se anuncia no próprio título: a tensão criativa entre coreografar, organizar, dar forma e improvisar entregar-se ao instante e ao encontro. A partir desse contraponto, o show investiga como corpo e som podem se traduzir mutuamente, desenhando a música a partir de perguntas sensíveis, como a cor de um acorde ou a forma que o som assume ao vestir um corpo em cena.
Nessa proposta, os arranjos fogem do convencional. A música é tratada como discurso, e a interpretação ganha potência quando corpo e voz deixam de ser apenas veículos da canção para se tornarem extensões do próprio som. O resultado é um espetáculo que caminha na fronteira entre o planejado e o espontâneo, onde cada apresentação se reconstrói a partir da escuta e da entrega ao momento presente.
O repertório reflete essa mesma liberdade estética. Fortemente influenciado pela linguagem jazzística e pelas matrizes afro-diaspóricas, o show reúne composições autorais e vozes de artistas contemporâneos como Ilessi, Tó Brandileone e Flavio Tris, além de releituras de nomes centrais da música brasileira, como Joyce Moreno, Baden Powell e Gilberto Gil. Esse cruzamento de gerações e referências cria um território sonoro plural, onde tradição e contemporaneidade dialogam sem hierarquia.
Mais do que um exercício estético, "Coreografias do Improviso" carrega uma visão de mundo. O espetáculo é atravessado pela experiência de uma pessoa preta e LGBT, para quem a ancestralidade não é uma referência distante, mas presença viva reinventada no corpo, no som e no modo de ocupar o palco. Assim, a obra se afirma não apenas como performance musical, mas como narrativa identitária construída em tempo real diante do público.










