A Serra do Curral e o fogão a lenha
Reprodução acervo Belotur

A Serra do Curral e o fogão a lenha

Quem cresceu em casa mineira sabe que o fogão a lenha tem um segredo: ele foi feito para durar. Construído no lugar certo, com ventilação calculada, madeira boa e espaço para respirar. Funciona há décadas sem reclamar. É eficiente, acolhedor e sábio.

Belo Horizonte foi construída assim.

Em 1897, o engenheiro que planejou a nova capital de Minas Gerais não escolheu esse lugar por acidente. Escolheu uma bacia natural cercada de serras. A Serra do Curral ao sul, a Serra do Taquaril a leste, a Serra de Jatobá a oeste. Uma tigela de montanhas que oferecia tudo que uma cidade precisava: altitude para amenizar o calor, córregos que desciam das serras para abastecer a população, e um microclima que os moradores do século XIX descreviam como perfeito.

A Serra do Curral era a parede principal dessa cozinha. O escudo natural que protegia a cidade dos ventos frios do sul, regulava a umidade e enquadrava o horizonte numa silhueta que virou símbolo. Em 1995, os belo-horizontinos foram às urnas e elegeram a Serra como símbolo oficial da cidade. Não foi uma decisão política. Foi um reconhecimento óbvio, ela sempre esteve lá, abraçando tudo.

Mas aí o fogão foi crescendo. E a cozinha foi se transformando com ele. 

Os prédios subiram, novos corredores de ventilação se formaram entre as construções. As ruas foram tomando forma e o asfalto foi desenhando a cidade que conhecemos hoje. A Serra continuou lá, firme, adaptando-se ao ritmo de uma capital que não parava de crescer. Quem mora no Mangabeiras e quem mora no Hipercentro vivem sob o mesmo céu e sentem temperaturas completamente diferentes no mesmo dia. A cidade cresceu dentro da panela, e a panela foi crescendo junto.

Assim como um fogão a lenha que alimentou gerações sem perder a essência, a Serra do Curral carrega em si algo que vai além da geografia. Ela é o ingrediente mais antigo dessa receita, presente antes da primeira pedra ser assentada, antes do primeiro nome ser dado às ruas, antes de BH ser BH.

Só quem sobe até lá entende tudo.

A Serra do Curral é um dos poucos lugares em BH onde dois biomas brasileiros se encontram no mesmo espaço: o Cerrado e a Mata Atlântica, cada um com sua flora, sua fauna e sua forma de existir. 

Faz parte da Serra do Espinhaço, quase uma cordilheira, reconhecida pela UNESCO como Reserva da Biosfera. Um título que não surpreende quem já subiu até o mirante e viu BH lá embaixo, uma cidade inteira encaixada numa bacia, cercada de verde, com a Serra como moldura.

O fogão a lenha funciona. E a vista de cima vale cada passo.