Concerto: Coletivo Vende Peixe-se em “Tudo o que se pode ouvir”

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O Vende Peixe-se é um coletivo formado por Cesco Napoli, Raphael Sales, Danilo Derick e Pablo Campos, músicos com trajetórias ligadas à cena independente de Belo Horizonte. Desde 2025, o grupo desenvolve uma pesquisa sonora que aproxima música experimental, canção popular, improvisação e colagem, trabalhando a escuta como matéria de criação. Guitarras, baixo, bateria, lira, sintetizadores, samples, transmissões, ruídos urbanos e fragmentos melódicos são reorganizados e manipulados ao vivo, fazendo de cada apresentação uma construção aberta às circunstâncias do encontro e à improvisação.


A pesquisa do coletivo parte da ideia de uma iconografia sonora: assim como a experiência contemporânea é atravessada por imagens, memes, signos e fragmentos que circulam continuamente, o Vende Peixe-se trabalha com sons capazes de acionar reconhecimento e memória. Canções, ruídos cotidianos, referências da cultura popular e materiais eletrônicos são apropriados, desmontados e deslocados de seus contextos originais, criando relações entre familiaridade e estranhamento, memória musical e experimentação.
Em Tudo o que se pode ouvir, o coletivo apresenta ao vivo o repertório desenvolvido em seus encontros e processos de criação, tendo como eixo o single “Chama Chama Ninguém Atende”, primeiro lançamento fonográfico do Vende Peixe-se. Gravada ao vivo em fita de rolo, sem utilização de computadores, a faixa incorpora materiais sonoros reconhecíveis do cotidiano contemporâneo — notificações, alarmes, ambiências urbanas e sinais eletrônicos — em uma composição que aproxima experimentalismo e estrutura
de canção.


No palco, essa lógica é expandida: as obras não são tratadas como estruturas fechadas a serem reproduzidas, mas como dispositivos para improvisação, interferência e reorganização sonora. O repertório reúne “Peixe-peixe”, “Chama Chama Ninguém Atende”, “Pia da da”, “The International Anthem, baby”, “Molenga”, “Complexo de épico” e “Jogo (pro cantão)”, estabelecendo aproximações com referências da música brasileira como Tom Zé, Alípio Martins, Caetano Veloso e Gal Costa, que aparecem não como citações estáveis, mas como materiais reconhecíveis submetidos a deslocamentos, sobreposições e transformações.


Tudo o que se pode ouvir propõe, assim, uma experiência em que canção, ruído, memória, improvisação e cultura cotidiana ocupam o mesmo campo de escuta. O reconhecível funciona como porta de entrada, mas é progressivamente desorganizado: uma música pode carregar outra música, um ruído pode assumir função melódica e uma referência familiar pode reaparecer transformada. No Vende Peixe-se, uma coisa é sempre outra coisa.

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