Duas irmãs. Dois casamentos. Uma mesma casa. Entre elas, um pacto que atravessa os limites do amor e faz emergir desejo, ciúme, posse e violência.
Em A Serpente, última peça escrita por Nelson Rodrigues, a intimidade se transforma em território de confronto. Quanto mais próximas estão as personagens, mais capazes são de alcançar — e ferir — aquilo que existe de mais profundo umas nas outras. Sob a aparência das relações familiares, o que se revela é o bicho-homem: visceral, contraditório, movido pelo desejo e pela necessidade de amar e ser amado.
Nesta montagem da Confesso Escola de Teatro, a dramaturgia rodriguiana encontra o nosso tempo. A encenação preserva a contundência do texto, mas abre fissuras para interrogá-lo. Entre elas, Crioula rompe o lugar que originalmente lhe foi destinado e toma a palavra. Pela atriz Efigênia Maria, personagem e intérprete atravessam a ficção para perguntar diretamente ao público: “Você me vê? Ou vê apenas o nome que me deram?”
Entre o sagrado e o profano, o riso e a ferida, o desejo e a culpa, A Serpente coloca diante do público aquilo que talvez seja mais difícil reconhecer: o que somos capazes de fazer quando amar, possuir e perder passam a habitar o mesmo lugar.